Momentos da apresentação da peça “Contestado – Vida e realidade”, pelo grupo “Sangue Jagunço” (Fraiburgo-SC), com os quatro principais combates do Contestado: Irani, Taquaruçu, Caraguatá e Santa Maria. (Fraiburgo, 11 de outubro de 2007).
As pesquisas que conduziram ao livro “O mato do tigre e o campo do gato – José Fabrício das Neves e o combate do Irani”, não indicaram a presença do personagem no restante do Contestado. Encontrei referência (residual, digamos), à presença de José Fabrício com José Maria no Taquaruçu, antes do início dos confrontos. Lá por agosto de 1912. Indiquei no livro informações de Antônio Martins Fabrício das Neves na entrevista ao Arquivo Histórico de Concórdia, a respeito das ligações de José Fabrício e José Maria, com Praxedes Gomes Damasceno.
Contatos anteriores ao combate do Irani. O senhor Antônio dizia que Praxedes estava em Taquaruçu “botado lá” pelo Fabrício. Procurei verificar essa informação e descobri que Praxedes estava na área desde o final do século 19. E fiquei por ali. A informação não batia. Mas como esses velhos não mentem, e confirmei várias outras informações do senhor Antônio, todas bem precisas, é necessário aguardar que novas fontes forneçam os elementos que ajudem a fechar o quadro.
O cerco
O livro já estava circulando e eu prosseguindo com as pesquisas, quando me deparei com duas referências do general Setembrino de Carvalho, a respeito de José Fabrício, durante o cerco a Santa Maria, em 1915, fase final do movimento.
Apenas para nos situarmos, o conflito teve, a grosso modo, a seguinte seqüência: depois do combate do Irani (1912), o movimento recomeça no final de 1913, no reduto de Taquaruçu (hoje Fraiburgo), depois o reduto de Caraguatá e, por fim, o maior de todos, com cerca de cinco mil edificações, o de Santa Maria (1915).
Esses eram os redutos principais, mas existiram dezenas, menores. Entre 1913 e 1915, até o cerco de Santa Maria, executado meticulosamente por Setembrino de Carvalho, os rebeldes conquistaram uma ampla área no vale do rio do Peixe, mobilizando cerca de 20 mil pessoas.
“Notícias apavorantes”
O cerco a Santa Maria implicou o corte no fornecimento de gêneros, levando fome e o surgimento de doenças, e a conquista dos redutos satélites. Em seu “Relatório”, o general Setembrino informa que na véspera do ataque final a Santa Maria, surgiram “notícias apavorantes sobre nova revolta nas bandas do Irani”. (General Setembrino de Carvalho. Relatório. Campanha do Contestado. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial. s/d, p. 120)
Por causa disso, em março de 1915, expõe ao Ministro da Guerra: “Espero reduzir os bandoleiros do Santa Maria antes que aperte o frio. Mas como não há certeza da terminação da luta com a sua queda definitiva, porque se anuncia outro levante nas bandas do Irani,desejo aparelhar a tropa de recursos que a garantam contra os rigores do inverno”. (idem Relatório, p. 124)
Dessa vez foi a Fundação Getúlio Vargas (CPDOC), que forneceu as evidências complementares: telegramas trocados entre o então Chefe de Polícia do Paraná, Vieira Albuquerque, e Setembrino de Carvalho, relacionados aos fatos no Irani. Nunca é demais lembrar que só depois de 1916, um ano depois, é que o Estado de Santa Catarina passa a administrar toda a região a oeste do rio do Peixe, onde estão os campos de Palmas/Irani.
Tudo começou com um telegrama do Chefe de Polícia ao general Setembrino, com base em informações transmitidas pelo subdelegado do rio do Peixe, Gonçalino Silva. “Infelizmente foram baldados todos esforços sentido manter sertão pacificado. José Fabrício está aliciando elementos dispondo seiscentos tantas Winchester. Ainda não fez hostilidades estando concentrados barra Jacutinga”. (Telegrama nº 569, de 4.3.1915, do Chefe de Polícia do Paraná, Vieira Cavalcanti, ao general Setembrino de Carvalho. CPDOC-FGV/FSC 15.03.04/5 – T. 7 antigo A 43).
“Levante próximo”
O Chefe de Polícia determinou então que o subdelegado Gonçalino reunisse forças e efetuasse a prisão de José Fabrício. O policial respondeu imediatamente por telegrama: “Cientifico não dispor elementos efetuar-se prisão José Fabrício. Individuo conta superior recursos meu contingente”. E que aguardava ordens do Chefe de Polícia. (Telegrama nº 10, de 5.3.1915, do subdelegado Gonçalino Silva ao general Setembrino de Carvalho. CPDOC-FGV/FSC 15.03.04/2 – T. 7 antigo A 43).
São com esses (e outros) elementos que trabalho no momento. Os arquivos do Exército (Rio) e do Paraná (Palmas, Curitiba) devem conter outras referências. Seu objetivo era romper o cerco de Santa Maria, com a passagem dos combatentes para os campos de Palmas/Irani, no outro lado do vale do rio do Peixe.
José Fabrício não foi batido nessa ocasião, como nos confirma a Mensagem Anual do governador Hercílio Luz encaminhado ao legislativo. Diz que ao assumir em 28 de setembro de 1918, “a situação no município de Cruzeiro era causa das maiores e justificadas apreensões”. Boatos, segundo ele, “os mais desencontrados e aterradores pareciam indicar um levante próximo de elementos perniciosos a frente dos quais se encontraria José Fabrício das Neves”. (Mensagem Anual. 1919. Governador Hercílio Luz). Tudo isso torna mais evidente a importância do aprofundamento das pesquisas, a diversificação das fontes e a releitura do que se escreveu sobre o tema Contestado.
QG de José Fabrício em Concórdia-SC.
José Fabrício das Neves (segurando o cavalo), ao lado de um Miguel (não identificado). Acervo: Reinaldo Antunes (Pinhão-PR)
Propriedade de Antônio Martins Fabrício das Neves (Irani-SC). Foto: Margaret Grando.
Propriedade de Reinaldo Antunes (Pinhão-PR)
Numa cerca qualquer (Pinhão-PR)
Paisagem entre Curitibanos e Campos Novos-SC.
Duas paisagens de Campos Novos-SC: transformação permanente pela atividade agrícola. A cada dia vemos novas cores e traços. O relevo se modifica mais lentamente.
Entrei no Contestado por acaso, como expliquei anteriormente. Seguia o rastro de José Fabrício das Neves sem imaginar seu envolvimento e a extensão dos compromissos com a liderança rebelde. Nem o próprio Vicente Telles tinha a exata noção de quem havia sido seu antepassado. “Ele era visto como bandido, inclusive pela família”, disse mais ou menos assim. E a medida que ele foi se convencendo de que a má-fama era injusta, foi indicando as fontes a conta-gotas, um a um.
Pude conhecer e conversar com o sr Tranqüilo Petini e sua esposa Isaura Kades, Agenor Antunes das Neves (Irani-SC) e dona Maria Antunes Lemos (Catanduva-SC). Em Concórdia-SC já havia localizado e entrevistado dona Cecília Boroski Talim, filha de José Fabrício das Neves fora do casamento, sempre acompanhado do fotógrafo e músico Júlio Gomes, que me foi apresentado pelo jornalista Rubens Lunge, presidente reeleito do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina. Gomes já havia me apresentado a José Antônio Puntel, residente no Engenho Velho (Concórdia). O mesmo Júlio Gomes articulou uma entrevista minha com seu pai, José Gomes, hoje residente em Colombo_PR, na região metropolitana de Curitiba, cujo pai era amigo de José Fabrício.
No Paraná
Pesquisando no Google, descobri a existência da professora Aurora Fabrício das Neves Tortelli, residente em Coronel Domingos Soares-PR, para onde seguimos. É importante destacar que minha companheira Margaret Grando me acompanhou em quase todas essas viagens, se encarregando da parte talvez mais chata e complicada: a árvore genealógica dos Fabrício das Neves obtida em cartórios, consulta a documentos particulares e entrevistas em todas essas viagens. Outro que me acompanhou em muitas jornadas foi o repórter cinematográfico Marco Nascimento, gravando 40 horas para um documentário sobre o tema (falarei disso mais adiante).
Em Coronel Domingos Soares encontramos alguns descendentes de Thomaz Fabrício das Neves, irmão de José Fabrício, e que havia se instalado na extensa fazenda São Pedro lá pelo final da década de 1930. O imóvel que pertencia a Alexandre Telles da Rocha (avô de Vicente Telles), fora trocado por duas propriedades na região do Irani. Também fomos muito bem recebidos por José Valdomiro Oliveira Neves, neto de Thomaz Fabrício das Neves, e seus familiares. Depois fomos a Palmas, onde tivemos a oportunidade de conhecer uma figura humana extraordinária, dona Elvira Dalla Costa, além do taxista Thomaz de Oliveira Neves (neto de Thomaz, irmão do barbeiro José Valdomiro), Saturnino Soares de Oliveira (filho adotivo do velho Thomaz) e sua esposa Maria Pelentier de Oliveira. Aqui também a recepção foi calorosa.
Pinhão
Mas e os descendentes diretos de José Fabrício? Não os conseguia localizar. Apelei para o Telles, que andou pesquisando e através de Agenor Antunes das Neves, me encaminhou um número de telefone em Pinhão-PR. Devia falar com um Reinaldo. Estava fechando o TCC do curso de História na Udesc, faltavam algumas semanas para a apresentação. Liguei. “Sim, eu sou bisneto do José Fabrício”, respondeu Reinaldo Antunes no outro lado da linha. Isso foi numa quinta-feira. No sábado eu estava em Pinhão. Reinaldo é filho de Assis que é filho de Afonso que é filho de José Fabrício das Neves. O Antunes que a família ajeitou vem da avó materna – uma forma de fugir à perseguição no pós-Contestado.
Vicente Telles, velho de tantas “guerras”, acompanhava tudo de longe, com vivo interesse e o conta-gotas nas mãos. Só depois que localizei a família de José Fabrício em Pinhão é que ele nos fez a maior de todas as revelações: o paradeiro dos Perão (Perón), no município de Coronel Vivida-PR, um pouco acima de Pato Branco. Lá conheci outra grande figura humana, Juca Perão, filho do velho José Alves Perão (José Felisberto), casado com outra fantástica figura, dona Sebastiana, carinhosamente chamada pelos netos de Vó Bástia. Citei todos esses personagens por que eles vão nos ajudar a contar o restante da história.
Agenor Antunes das Neves, residente em Irani-SC, faz a defesa de José Fabrício e explica os detalhes da emboscada que vitimou esse líder do Contestado. O pai de Agenor, Emílio (filho de Gabriel Fabrício das Neves), foi testemunha do que ocorreu com José Fabrício.
Dona Cecília Boroski Talim, filha de José Fabrício das Neves, residente no bairro Santa Cruz, em Concórdia-SC. Foto: Júlio Gomes.
Júlio Gomes, fotógrafo e músico em Concórdia-SC, filho e neto de caboclos que atuaram no Contestado, prestou grande ajuda nas pesquisas.
Sr Tranqüilo e dona Isaura: por décadas eles moraram nas imediações do túmulo do monge José Maria (Irani-SC).
Antônio Martins Fabrício das Neves (dir) com seus familiares no Irani-SC.
Paisagem no interior de Cel Domingos Soares-PR.
Thomaz Oliveira Neves, taxista em Palmas-PR, irmão de José Valdomiro e neto de Thomaz Fabrício das Neves.
Dona Elvira Dalla Costa e alguns de seus netos em Palmas-PR.
Catedral do Senhor Bom Jesus de Palmas-PR. Para os caboclos da região, o Senhor Bom Jesus é o próprio São João Maria.
Interior da fazenda São Pedro (cel Domingos Soares-PR). As folhas de buteiro eram usadas para fazer colchões, uma das ocupações econômicas da família de Thomaz Fabrício das Neves.
Entrada na fazenda São Pedro, que pertenceu a Thomaz Fabrício das Neves, no interior de Cel Domingos Soares-PR.
José Valdomiro Oliveira Neves, cabelereiro em Cel Domingos Soares. No meio seu filho Tiago Silveira Neves. No lado direito um irmão de José Valdomiro, José Antônio Oliveira Neves.
Família de dona Aurora Fabrício das Neves Tortelli reunida no interior do município de Cel Domingos Soares. No canto direito está o sr Tortelli, marido de dona Aurora, que atua no ramo madeireiro.
Dona Aurora Fabrício da Neves Tortelli, liderou o movimento de emancipação do então distrito de Palmas.
Interior do município de Coronel Domingos Soares-PR
Genealogia de Thomaz
Thomaz Fabrício das Neves (irmão do “nosso” José Fabrício), era filho de Antônio Fabrício das Neves e Josefina Pereira Maia, segundo os registros no Cartório do Irani. No combate do Irani, segundo o Processo aberto em Palmas-PR, aparece entre os rebeldes um Antônio Fabrício das Neves, tendo como apelido Sinhoca Fabrício, possivelmente o pai de Thomaz e José Fabrício. Antônio Martins Fabrício das Neves diz que o pai deles se chamava Sinhuca Fabrício. A tradição oral na família indica que eles iram meio-irmãos, ou seja, filhos do mesmo pai. Dona Cecília Boroski, em Concórdia-SC, diz que um era bem “claro” e o outro mais “escuro”.
Túmulo de dona Elíbia
Elíbia Fabrício das Neves, nascida em 30 de dezembro de 1882 (possivelmente no Rio Grande do Sul), falecida em 23 de setembro de 1966, casada com Thomaz Fabrício das Neves. Era filha de José Fabrício das Neves (outro José Fabrício, não o personagem central desse blog) e Francisca Soares de Miranda (faleceu no Irani no dia 8 de novembro de 1925, com 76 anos de idade, e que aparece no Processo do Irani, em 1912-1913, já como viúva). Sua sepultura (foto) está no cemitério da localidade de Passo Fundo, no município de coronel Domingos Soares.
Em primeiro plano prédios da Ilha, depois o canal que liga as duas baías de Florianópolis (Norte e Sul) e, no fundo, o bairro do Estreito (Capital) e os espigões do Kobrasol (São José).
Via Expressa Sul, implantada sobre aterro hidráulico, vista do alto do morro da Cruz.
Santo Antônio de Lisboa. O pescador remenda a rede. As gaivotas em busca das sobras. As estruturas ao fundo são para a criação de ostras e mexilhões.
Sambaqui (onde moro).
Vista da sacada de casa.
A abellha e o beija-flor. Rio Bonito (Joinville-SC)
Arco-íris visto da sacada de casa. No horizonte, onde ele pousa, a região continental de Florianópolis.
Nascido em Laguna-SC em 23.11.1955. Reside em Florianópolis desde 1959, mais ou menos. Criado na Trindade (Florianópolis). Morou em Joinville de 1980 a 1986. Jornalista e historiador. Fotografa.
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