terça-feira, 6 de janeiro de 2009

José Fabrício das Neves (34)

Os papéis de Thomaz e Miguel Fabrício das Neves (2)

Thomaz Fabrício das Neves no lado direito
do governador Adolpho Konder (de bengala),
em Joaçaba. Foto de 1929*.

Miguel Fabrício das Neves estava com 64 anos de idade ao ser ouvido pelo comissário Domingos Nascimento Sobrinho no dia 20 de novembro de 1912, no Irani, na residência de seu genro, o comerciante João Roza.

Disse que no dia 15 de outubro último chegara à casa de seu sobrinho Thomaz, “um indivíduo intitulado Monge e de nome [...] José Maria de Castro Agostinho, acompanhado de sessenta homens a cavalo, entre estes o Capitão Praxedes, Fernandes de Tal, italiano, Joaquim Gomes e um velho de nome Delfino, todos vindos de Campos Novos, dizendo o Monge que vinha [...] e descansar seus cavalos para voltar para Campos Novos afim de ali atacarem o Cel Albuquerque; que estes homens estiveram quatro dias em casa de Thomaz Fabrício e daí seguiram para a casa do respondente onde estiveram acampados até o dia do combate”.

Lembrou que no dia 21, chegaram a sua casa o coronel Domingos Soares, acompanhado por Octávio Marcondes, José Júlio Farrapo, João Varella e Deco Cachoeira, “e ali conferenciaram com o Monge, depois de terem falado com o respondente e de cuja conferencia o respondente teve conhecimento por ter assistido, ficando então combinado que o povo que ali se achava reunido se retirasse, no dia seguinte até meia noite, pois no mato tinha muitos animais extraviados e que para reunir carecia do referido prazo”.

Na ocasião, Miguel ouvira do coronel Soares “que sua atitude [do monge] era retirar-se para Campos Novos e que no Paraná ele não brigava, pois nada tinha com o povo deste Estado e que à presença do Comandante João Gualberto ele não ia, porque tinha receio de ser maltratado, tendo então o Cel Soares feito ver ao Monge que isso não aconteceria e que se o Monge quisesse acompanhá-lo, teria todas as garantias, ao que o Monge respondeu que se o Cel Soares fosse Governo ele o acompanharia e como não era não o acompanhava, dando com essas palavras a entender que não confiava na palavra do Cel Soares”.

Em conversa com Miguel, o coronel Soares “contou que vinha ali afim de dispersar aquele povo e que não queria que este povo fosse sacrificado; que as mesmas ponderações fez Octávio Marcondes dizendo conhecer aquele povo que em maioria eram arrendatários do Irani”. Em seguida o coronel se retirou “e o Monge deu ordens ao seu pessoal para que fossem seguindo os animais para no dia seguinte ao meio dia se retirarem para Campos Novos”. Nesse mesmo dia, à tarde, José Maria seguiu com “vinte ou vinte e quatro homens montados a cavalo e com ele na frente vieram em direção ao Banhado Grande de onde voltaram alta madrugada; que o respondente não viu ele chegar por estar deitado e com um pé destroncado”.

Segundo ele, no dia 21, José Maria deixara um piquete para o Banhado Grande. Na manhã de 22 de outubro, “muito cedo, chegou gente do piquete da frente, dizendo que o mesmo piquete estava tiroteando com as forças do Governo no Banhado Grande; que então o Monge mandou encilhar a cavalhada e saíram em disparada em direção ao Banhado Grande, vindo alguns a pé. Que momentos depois chegou em sua casa notícias, não sabendo quem as trouxe, que tinha se dado o combate e o Monge tinha morrido; que ele respondente e o Cel Fragoso que ainda se achava em sua casa, retirou-se às pressas levando o respondente sua família para o paiol de seu filho Alípio; que quando saía de sua casa passava o Cap Praxedes, a cavalo, com sangue em uma perna; que não conversou com este; que deixou sua casa aberta de onde roubaram muitos objetos seus”.

No dia 23, mandou “gente sua em sua casa e quando ali estavam, chegou um soldado da Polícia, disfarçado, dizendo-se alfaiate, e que estava com fome; que então deram-lhe o que comer e o ensinaram a estrada para a cidade; que as pessoas conhecidas suas que sabe, por ouvir dizer, que tomaram parte do combate foram somente José Fabrício, José Alves Perão e o filho de Bento Quitério que morreu; que as pessoas que morreram no combate, não são suas conhecidas ignorando por isso os seus nomes”.

O pessoal que seguiu José Maria no combate era em “número superior a cento e cinqüenta; que um indivíduo de nome José vindo de Capinzal de próprio do Cel Amazonas e do Comandante Pyhrro, contou ao depoente que um grupo com o Praxedes a frente tinha passado o Rio do Peixe, para Santa Catarina, e que o resto do pessoal, pode afirmar o respondente, que estão todos escondidos ou foragidos; supondo o respondente que José Fabrício e José Felisberto imigraram e por isso não se acham mais nessa zona; que o que sabe em relação é tão somente o que já disse”. [...]

Depois de encerrado o depoimento, Miguel comentou que havia presenteado José Maria com “uma guampa branca em a qual lê-se o seguinte: Santa Maria, 9 de agosto de 1912 e mais as suas iniciais que são MFN. Que o Monge na ocasião do combate montava um cavalo branco, cujo cavalo foi presenteado ao Monge pela senhora de Onofre Pereira, morador do Jacutinga. E que nada mais tem a declarar [...]”. (Processo do Irani-PI, fls 140b-143)


Prisão e julgamento
Principais momentos

- Miguel Fabrício das Neves e seu sobrinho Thomaz Fabrício das Neves são apresentados presos em Palmas-PR no dia 13 de abril de 1913
- Auto de qualificação. No dia 18 de abril de 1913, ainda em Palmas, foram levados “sob escolta” a sala de audiências do juízo para o auto de qualificação. Presente o juiz Júlio Abelardo Teixeira.
Miguel Fabrício das Neves, 63 anos, filho de José Fabrício das Neves, [outro José Fabrício, na época falecido] casado, lavrador, brasileiro, nascido em Passo Fundo-RS, sabe ler e escrever. (PI, fls 227b-230)

- No dia 28 de abril de 1913 Miguel e Thomaz foram novamente escoltados a audiência (julgamento).

- Terceira testemunha. Ireno Gonçalves da Rocha, 43, casado, lavrador, natural do Rio Grande do Sul, residente no município de Palmas, sabendo ler e escrever. Era primo da mulher de Miguel (Feliciana Gonçalves dos Santos) e de Clementino Gonçalves, “pelo que o juiz deixou de definir-lhe o compromisso legal e em seguida sobre os fatos constantes da denúncia”. Disse que em 21 de outubro de 1912, “indo ele, defronte a casa do denunciado Miguel Fabrício da Neves”, observou “um ajuntamento de pessoas quase todas estranhas”, tendo reconhcido “as seguintes: Miguel Fabrício das Neves, Thomaz Fabrício das Neves, José Felisberto, Paulo Ramos, Cândido [...] e João Belchior”.
Revelou que “sabe por ouvir dizer” que o ajuntamento era comandado por José Maria de Castro Agostinho e alguns detalhes do combate. Ajudou e tratou o alferes Sarmento, não esteve no reduto, nem participou do entrevero, mas ouviu dizer que José Fabrício “tomou parte no combate travado no Banhado Grande e esteve ao lado do monge”. Respondendo a uma pergunta do promotor, disse: “[...] sabe que o alferes Sarmento foi saqueado em um relógio e 100 mil réis”, o que Sarmento lhe contou. “Dada a palavra aos denunciados, declararam que nada tinham a contestar”. (PI, fls 236-237)

- Por “requerimento” do promotor a audiência foi suspensa, “devido a hora achar-se adiantada”. Os réus e testemunhas foram intimados para o dia seguinte. Testemunhas: João Antônio da Roza, João Pedroso de Camargo, Braz da Costa Varella e o coronel Domingos Soares. Réus: Miguel e Thomaz Fabrício das Neves. A nova audiência foi marcada para o dia seguinte, 29 de abril de 1913. (PI, fls 240)

(Segue)

* Foto publicada no Álbum comemorativo do cinquentenário do município de Joaçaba, de Alexandre Muniz de Queiroz. Curitiba: IP, 1967.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Valentini defende tese sobre a Lumber


"Atividades da Brazil Railway Company no sul do Brasil: a instalação da Lumber e a guerra na região do Contestado (1906-1916)" é o título da tese de doutorado que o professor Delmir Valentini defende na próxima segunda-feira, em Porto Alegre. "Estamos fazendo diversas novas revelações a respeito do conflito", destaca Delmir.

A banca será composta pelos professores doutores Núncia Santoro de Constantino (orientadora, PUC-RS), Marli Auras (UFSC), Maria Letícia M. Ferreira (UFPEL), Heliane Müller de Souza Nunes (PUCRS/FACE) e Cláudia Musa Fay (PUCRS/PPGH).

Data: 12/01/2009
Local: Prédio 03, na sala 307
Horário: 14 horas
Campus da PUC-RS (Porto Alegre)


As imagens foram encaminhadas pelo repórter-fotográfico J. L. Cibils para o Fragmentos do tempo, produzidas em 1992. É bem possível que as fotos em preto e branco tenham sido feitas pelo fotógrafo Claro Jansson, que por muitos anos viveu em Porto União-SC. É dele a maioria das fotos sobre a ferrovia do Contestado e as instalações e cotidiano da Lumber que circula por aí.

Almoxarifado da Lumber.

Armazem da empresa.

Sede da serraria da Lumber (Três Barras-SC).

Cartões-postais produzidos pela madeireira.

Extração mecanizada das toras de pinheiro e outras árvores.

Vales que substituíam a moeda nacional entre os funcionários da Lumber.

domingo, 4 de janeiro de 2009

José Fabrício das Neves (33)

Os papéis de Thomaz e Miguel Fabrício das Neves (1)

Thomaz e seus familiares. Irani, meados da década de 1920.
Acervo: Thomaz Oliveira Neves (Palmas-PR)


Sete dos 63 arrolados no inquérito aberto em Palmas no dia 23 de outubro de 1912, foram efetivamente condenados ao final do processo: José Fabrício das Neves, José Alves Perão (José Felisberto), Praxedes Gomes Damasceno (líder em Taquaruçu, Fraiburgo-SC), “Luiz de Tal filho de João Luiz”, Manoel Barreto, Emiliano Glória e “Maurílio de Tal, vulgo Pepino Branco”.

Miguel Fabrício das Neves, então com 64 anos de idade, e seu sobrinho Thomaz Fabrício das Neves, 37, irmão de José Fabrício das Neves, foram presos e conduzidos a Palmas pelo delegado de polícia Gonçalino Silva, aonde chegaram em 13 de abril de 1913, permanecendo 38 dias “a ferros”. Foram liberados em 21 de maio do mesmo ano.

Vamos nos deter um pouco nesses dois personagens, o tio e o sobrinho. Sobre o segundo (Thomaz) foi possível obter muitas informações, inclusive localizar muitos de seus descendentes no Paraná. Em relação ao primeiro (Miguel), permanece uma série de dúvidas, inclusive quanto a seu destino e dos descendentes.



Miguel Fabrício das Neves

Não era fácil assistir e alimentar toda aquela gente, os animais de montaria e carga, garantir cama e cobertura, dar conta dos dejetos e lixos. Aos que se juntavam para a luta, estava quem simplesmente buscava a atenção do monge José Maria, seus conselhos, receitas, rezas e missas.

Desde o dia 18 de outubro de 1912, quando o sobrinho Thomaz Fabrício apareceu com o grupo do monge, a propriedade de Miguel Fabrício das Neves fervilhava de gente. Alguns conhecidos, outros completamente estranhos. Mas ninguém deveria passar necessidade. Hospitalidade, uma característica ainda presente na região.

Com 64 anos, nascido na região de Passo Fundo, Miguel lutou na Revolução Federalista (1893-1895) e foi um dos muitos Fabrício que se juntaram aos Soares, aos Kades e a outras famílias, para ocupar os campos de Irani. Era uma região quase desabitada, localizada na zona “indicada pelo monge”, segundo Antônio Martins Fabrício das Neves.

Foi da casa dele que José Maria saiu com um grupo de homens, no amanhecer de 22 de outubro de 1912, para combater as forças do coronel João Gualberto. Miguel certamente não combateu, assim como o coronel Miguel Fragoso, mas forneceram a infra-estrutura e os homens que foram para o combate. Não entraram na luta porque não foi necessário. O efetivo de José Maria foi suficiente.

Assim que chegaram as primeiras notícias do resultado do combate, Miguel Fabrício e o coronel Miguel Fragoso se retiraram “às pressas”, encontrando no caminho Praxedes Gomes Damasceno, chamado de capitão Praxedes, a cavalo e com muito sangue em uma perna. Teria passado direto, sem falar com ninguém. Miguel foi se refugiar com a família num paiol de seu filho Alípio.

No caminho encontraram Emiliano Martins Moreira, 48 anos, viúvo, lavrador, que acompanhou o deslocamento da caravana formada por Miguel Fabrício e seus familiares, filhos e genros.

- Ele disse que ia de mudança para o outro lado do rio Jacutinga, porque o pessoal de José Maria tinha tido um encontro com as forças do Governo e que estavam brigando, teria dito Emiliano no depoimento.

Miguel, segundo Emiliano, estava com jeito de quem “havia corrido após o combate”.

Miguel Fabrício das Neves presenteou José Maria com uma guampa branca onde se lia o seguinte: “Santa Maria, 9 de agosto de 1912. MFN”.

Que Miguel Fabrício, também tendo sob suas ordens muita gente, deixou de comparecer ao combate, tendo na véspera destroncado um pé, dizem uns, por ocasião de fazer um reconhecimento”. “[...] dizem outras pessoas de casa e ele próprio, por ocasião de ir fazer uma visita a um seu parente”. “[...] tendo, porém, entrado em combate contra as forças legais e tomado nele parte saliente, os indivíduos que serviam sob suas ordens”. (Terceira conclusão. Relatório do Inquérito)


Thomaz Fabrício das Neves

Thomaz Fabrício das Neves foi ouvido durante a fase de inquérito pelo comissário Nascimento Sobrinho, no dia 20 de novembro de 1912, na residência do comerciante João Roza, no Faxinal dos Fabrício (Irani). O irmão de José Fabrício das Neves estava com 37 anos de idade, casado com Elíbia Fabrício das Neves, atuava como lavrador, era natural do Rio Grande do Sul e residente no Banhado Grande, “distante do local do combate 700 metros”.

Disse que no dia 14 de outubro de 1912, “chegou em sua casa um indivíduo de nome José Maria, intitulado Monge, acompanhado de cento e cinqüenta homens, uns a pé e outros a cavalo, e todos armados, dizendo andar a passeio e vindo de Curitibanos, entre eles recorda-se de um de nome Praxedes e que também o Monge trazia consigo doze indivíduos, bem montados, cujos nomes ignora, aos quais dava o título de 12 pares de França; que esses homens estiveram em sua casa durante quatro dias, retirando-se depois para a casa de Miguel Fabrício”.

Thomaz alegou que não sabia “o nome de nenhum dos homens que acompanhavam o Monge” e que seguira José Maria e seus homens na retirada para a casa de Miguel, retornando “no mesmo dia para sua casa”. No dia 21 de outubro, véspera do combate, ao chegar ao reduto, vira “ali o coronel Soares conferenciando com o Monge". Soube"ter ficado combinado a retirada do Monge com seu pessoal, no dia seguinte, para Campos Novos; que nessa ocasião não pode notar o número de pessoas que rodeavam o Monge, e que com pouca demora retirou-se para a sua casa”.

Nessa mesma noite de 21 de outubro de 1912, Thomaz “ouviu muito barulho na estrada, de cavaleiros e falas, e que ao amanhecer ouviu forte tiroteio, e, como as balas estivessem cruzando por cima de sua casa, retirou-se com sua família pela estrada vindo para a casa de João Roza, seu próximo, onde deixou sua família e foi se esconder no fundo do potreiro, que fica na direção do Banhado Grande [assinalado no original], não vendo por isso as pessoas que passavam na estrada”. De onde estava conseguia avistar a casa de João Roza, para onde retornou.

Afirmou ao comissário que permaneceu três dias em seu paiol, “vindo em sua casa e regressando no mesmo dia para o mesmo paiol de onde só regressou a tardinha”. Ali foi visitado por “seu cunhado Gabriel Fabrício, inspetor do Quarteirão”, que o convidou “para ir ajudar a enterrar os cadáveres”. Ao chegar no Banhado Grande “encontraram vinte e um cadáveres que ali deram sepultura”, entre os quais José Maria e o coronel João Gualberto e “que esses cadáveres apresentavam sinais de saque pois os bolsos se achavam todos virados para fora”.

Disse ignorar se moradores locais “tomaram ou não parte do combate”, garantindo que nesse dia, seu tio Miguel Fabrício se achava de cama com um pé destroncado. Por fim alegou “que devido a sua ignorância, nunca desconfiou que os planos de José Maria fossem reais; que nada mais pode informar [...]”. (Processo do Irani - fls 138-139)


Detalhe do baú que pertenceu a Thomaz Fabrício das Neves, exposto no Museu do Jagunço (Taquaruçu, Fraiburgo-SC) e que estava em poder de Sílvia Neves. Junto ao baú estão o garfo e faca de prata que teriam sido usados por José Maria por volta de 1911 (pertenceu a Maria Padilha e foi cedido ao Museu por Pedro Felisbino). A tesoura também teria sido usada por José Maria para cortar os cabelos dos caboclos (cedida ao Museu por Sérgio de Lorenzi).

sábado, 3 de janeiro de 2009

Vicente Telles, cancioneiro do Contestado

Vicente Telles por Willy Zumblick.



Cidadão Catarinense. Assembléia Legislativa
(Florianópolis-SC), 18.10.2007.

Concentração em Taquaruçu (Fraiburgo-SC), meados da década de 1980.

Representação do combate de 1912 em Irani. Início da década de 1980.

Isabel Olímpia da Silva, mãe de Vicente,
filha de José Alves Perão e Júlia Olímpia da Silva.


Heleodoro Telles da Rocha, pai de Vicente, filho de
Alexandre Telles da Rocha e Erminda Fabrício das Neves.


Vicente Telles ensaia em sua residência no Irani.
No fundo os quadros dos avós maternos.


Túmulo da avó paterna de Vicente Telles
no Cemitério do Contestado (Irani-SC).


Alexandre Telles da Rocha, avô paterno de Vicente,
"coronel" que dava guarida às forças militares na região.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

José Fabrício das Neves (32)

Júlio Olímpia da Silva e José Alves Perão (José Felisberto).

José Felisberto, combatente (4)

Terceira e última parte da entrevista com José da Silva Perão (Juca Perão), filho de José Alves Perão (José Felisberto) e de Júlia Olímpia da Silva. A entrevista foi feita no dia 22 de julho de 2007 na localidade de Jacutinga (Coronel Vivida-PR), onde os Perão se refugiaram das perseguições. Presentes Vicente Telles (sobrinho de Juca e neto do velho Perão) e o repórter-fotográfico Marco Cezar. Dona Sebastiana Perão participou.


Seu pai trabalhava com o que?

Juca – Ele sempre... o pai contava que ele só fazia revolução mesmo... O véio meu pai adorava revolução, hôme! Adorava mesmo. Depois, no ano 40, deu uns pé de revolução aqui, pois vê que ele veio lá do Irani e veio se meter aqui... Ele gostava, gostava disso, mesmo...

E o que houve aqui, o senhor lembra?

Juca - Não, não lembro. Mas ele depois, quando ele parava num lugar, ele fazia roça, plantava, plantava o que os filhos iam comer. Quando ele tava escondido, ele tava fazendo roça. Roçando, tal, né? Ele ainda conta que quando tava escondido nesses matão, quando era no inverno em tempo de pinhão, ele juntava bastante pinhão de dia, reunia bastante lenha, de noite faziam fogo e assavam bastante pinhão e quando acontecia de matar uma caça, então ele comia a caça assada com pinhão, dois, três dias assim... É melhor que carona, né. [...]

Sebastiana - Ele contava os causos dele e eu ouvia, porque eu costurava...

Juca - ...o assunto era só aquilo, não tinha outro assunto. Era só a briga...

[...]

Juca – Mas sempre do lado do fraco sempre tem, como se diz, uma guia, que nem o véio Perão contava [...] Deus ajuda, o Divino ajuda, já no Irani o véio meu pai contava e eu não cheguei a conhecer, uma veinha que durou 120 anos e não conheceu a luz do sol, era cega, era ceguinha, então eles não iam bater o combate sem í fala com... preguntá [a ela] o que ia acontecer. De hoje a 10 dias, 15 dias, ela contava hoje. “Não dá pra í ou dá”.

Qual o nome dela?

Juca – Guilhermina. Ela durou 120 anos.

Telles [ouviu falar dela].

Antes de ir a algum combate consultava?

Juca – É, ia lá consultava, se dava pra í ou não dava. Se não dava daí ela dizia ‘não vão’. Aí [...] mais dois, três dias, ia lá, ‘hoje dá pra í’ iam lá e sempre [vinham] feliz.

Telles – Sempre dava certo, tio Juca?

Juca – Sempre dava certo.

[...]

Seu pai participou da revolução de 23 no Rio Grande, contra o Borges de Medeiros?

Juca - Dessa eu não ouvi falar, mas provavelmente...

Porque o José Fabrício...

Juca ... era, era. Então ele ajudou...

Telles – O Assis Brasil. O senhor nunca ouviu falar em Assis Brasil?

Juca – Não, não me lembro...

[...]

O que ele falava da morte do José Fabrício?

Juca – Ah, ele sentia barbaridade. Nossa! Pra eles foi um..., né. Um homem daquele não podia morrer, né. Ele sempre falava...

Seu pai falava do Marcelino Ruas?

Juca - Desse não ouvi falar.

Em quantos irmãos vocês eram?

Juca – Em 14 irmãos, viemo tudo pro Paraná, vieram todos, uns casados, vieram na companhia dele. Quem era casado veio com tudo, esposa, filhos... Que nem esse genro do meu pai que veio na frente e comprou os terrenos, o Alípio Cordeiro, veio com a família. [...] Era casado com uma irmã minha.

[...]

Sebastiana – Falava do João Maria... Tem foto. [Dona Sebastiana se retira em busca da foto].

O que o seu pai falava do monge do Irani?

Juca – Ele falava que ele também era dos tal que sabia o dia que dava pra ir o dia que não dava, sem ele mandar não ia nenhum. É o que o meu pai falava.

Mas ele era conhecido do pessoal do Irani?

Juca – Era conhecido, era. Então o pessoal do lado dele tinham ele como meio santo, santo de uma vez, e os outros chamavam o monge, o monge.

Foto: Marco Cezar

[Dona Sebastiana mostra o quadro com uma foto de São João Maria que tem em casa. Diz: “Chamavam o monge para ele. Esse pra mim é mais que um santo. É quem cuida as águas pra gente.”]

Juca – As fontes onde o João Maria pousava e benzia... então até hoje o pessoal... cura, faz chá pra remédio das águas.

Sebastiana – E como eu rezo, tenho uma fé que nossa! Rezo as mesmas orações que rezo pros outros [santos], Ave Maria, Pai Nosso. Esse aí onde ele pousava ele benzia um ôio d’água daí ficava que um dia vai secá as água mesmo, né. Eu tenho ali encima e mandei fechar lá o olho d’água e mandei benzer e punhei a foto encima do meu ôio lá. Mas fizeram uma [bobagem] lá, botaram errado. Paguei e colocaram deitado, ao invés de botar assim de pezinho... Ele era de pé, não era sentado”.


Juca Perão (Coronel Vivida, 14.12.2007)


Comentários

Dona Sebastiana é uma profunda devota de São João Maria. Numa segunda visita ao casal, eu e o repórter-cinematográfico Marco Nascimento gravamos em vídeo cerca de duas horas de entrevista com José da Silva Perão (Juca Perão) e outra hora e meia com dona Sebastiana, a Vó Bástia. O material está sendo editado e deve ser divulgado até meados de 2009.

Vó Bástia fez importantes revelações envolvendo a religiosidade de São João Maria. Ela tem na memória uma oração passada pela citada Guilhermina a seu sogro José Alves Perão (José Felisberto) e que não pode ser rezada em voz alta. Quando chegar o momento certo, ela vai escolher alguém que possa decorar a oração e dar continuidade à mesma.

Com Juca Perão aprofundamos o perfil de seu pai e a diáspora dos antigos combatentes do Irani e do Contestado, rumo ao Paraná, sobretudo a região Sudoeste. É importante destacar que na entrevista que acaba de ser reproduzida quase na íntegra, estava à procura de informações sobre o personagem principal de minhas pesquisas – José Fabrício das Neves. Só depois desse encontro com os Perão em Coronel Vivida-PR é que consegui localizar os descendentes diretos de José Fabrício em Pinhão-PR. Por isso, na segunda entrevista com Juca Perão e dona Sebastiana, pude me aprofundar na saga dos Perão. Mas esse é tema para o vídeo-documentário.

Juca Perão e Marco Nascimento (Coronel Vivida-PR, 15.12.2007).