quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Personagens atuais do Contestado (1)


Vicente Telles


21 de março de 2007. Irani-SC. Conheci Vicente Telles em sua residência. Tinha contato com o trabalho, acompanhava as façanhas pelos jornais.

– Pois não! Disse Telles, meio sonolento, ao nos receber numa tarde de uma quarta-feira.

Apresentamo-nos, Margaret Grando e eu. O encontro havia sido agendado por telefone.

– Ah! Pois não! Queiram entrar.

A sala da residência de alvenaria com três pisos se assemelha a uma galeria. Ali estão representações artísticas do Contestado e, sobretudo, do combate de 22 de outubro de 1912 no Irani. E também fotos, como as de José Alves Perão, e dona Júlia Olímpia, avós maternos de Vicente.O pai, Heleodoro Telles da Rocha, e a mãe, Isabel Olímpia da Silva, também então presentes em retratos na parede.

– E o José Fabrício?

Vicente nos olha, pensa um pouco.

– José Fabrício era um tema proibido na família.

E nos conta o pouco que tem na memória.

Depois nos leva ao Cemitério e Museu do Contestado, a poucos metros de sua casa, nas margens da BR-153. Um pouco mais adiante o local do combate e o túmulo do monge José Maria de Castro Agostinho. Antes da despedida, Telles nos presenteia com o disco “Epopéia do Contestado – História em Música”, gravado por ele e Vicente Telles Filho, o Vicentinho. Se fosse um disco antigo, a agulha da vitrola teria gasto as ranhuras do vinil, dada à quantidade de vezes que ouvi as nove músicas ali gravadas.

Na segunda vez que fui a residência de Vicente já era hóspede, iniciando então uma grande amizade e colaboração. Acabei me tornando amigo do Vicentinho e das irmãs do Vicente que moram no Rio – Dina e Guilhermina. Mais tarde fui levado até a localidade de Jacutinga (Coronel Vivida-PR), onde fui apresentado aos tios de Vicente, José da Silva Perão (Juca Perão), filho do combatente do Irani José Alves Perão (José Felisberto) e a dona Sebastiana, carinhosamente chamada Vó Bástia pelos filhos e netos.

Nascido no dia 5 de outubro de 1931, em Palmas-PR, no antigo distrito de Retiro (hoje município de Coronel Domingos Soares), Vicente foi residir no Irani-SC com três ou quatro anos de idade. Ali permaneceu até 1950, quando foi servir o Exército, seguindo a carreira militar até 1975. Durante todo esse tempo ficou distante do Irani, retornando em 1977 para cuidar de sua mãe, Isabel, que morreu em 1979 (o pai, Heleodoro, falecera antes).

“Uma mãe-de-santo da Bahia me disse uma vez que eu tinha uma missão a cumprir, ali mesmo em Salvador, em Dourador-MS ou no Irani. E eu achei que essa missão era cuidar de minha mãe no Irani, mas quando ela faleceu, eu já estava envolvido até o pescoço com o Contestado”, lembra Vicente. Ele soube de alguns detalhes do Contestado através de um engenheiro da empresa Teixeira Guedes, construtora da BR-153. “Um deles se chamava Jailson Cavalcanti, se não me falha a memória”, diz. “Eu já tinha ouvido falar do combate do Irani, mas como todo mundo por aqui, eu também achava que o Contestado se resumia a esse episódio”.




Túmulo do monge José Maria de Castro Agostinho no Irani-SC.


Área onde ocorreu o combate do Irani no início da manhã de 22 de outubro de 1912.


Foi assim que Vicente nos recebeu na tarde do dia 8 de setembro de 2007, em sua residência: o titular do blog, o repórter-fotográfico Marco Cezar e o repórter-cinematográfico e também fotógrafo Marco Nascimento.




Na Assembléia Legislativa (Florianópolis-SC), quando recebeu o título de Cidadão Honorário do Estado de Santa Catarina(18.10.2007).




Lutador Solitário


Enéas Athanázio (*)


Em ligeira viagem pelo Estado, chegamos à cidade de Irani, às margens da BR 153 - a Transbrasiliana. Nas cercanias ocorreu o combate que daria início real à Guerra do Contestado que se estenderia até 1916.Ali pereceram, no dia 22 de dezembro de 1912, o coronel João Gualberto, comandantes das forças legais e o monge José Maria, líder dos revoltosos. Fatos que calaram fundo na alma do povo e transformaram a cidade no local onde foi aceso o estopim da mais sangrenta conflagração civil de nossa história. O cemitério e o monumento do Contestado são atrações turísticas muito visitadas.

Percorrendo o centro urbano, limpo e bem cuidado, conversando com um e outro, logo veio à tona o nome do prof. Vicente Telles, segundo a vox populi a maior autoridade nos assuntos do Contestado. Já o conhecia de nome há muitos anos, tinha notícia de suas atividades e havia lido trabalhos de sua autoria. Reside numa fazenda, herdada dos antepassados, cerca de dois quilômetros além da cidade, e para lá nos dirigimos. Tem uma casa ampla e bonita, construída num pátio elevado e limpo, de onde avista o imenso vale verdejante que se estende a perder de vista, com os campos manchados de capões e onde farfalham muitos pinheiros e árvores nativas. Ali não se toca em nada, diria o dono, mais tarde. Como fosse um sábado, tivemos a sorte de encontrá-lo em casa e ele não tardou a aparecer.

Homem alto, com os cabelos pelos ombros, simpático e falante, logo entrosamos uma conversa algo desencontrada, como é comum nos primeiros encontros. Ele nos deixou à vontade e logo pudemos avaliar a amplitude de seus conhecimentos sobre o Contestado, seus feitos, causas e conseqüências. Modesto, ele se considera um rábula da história, embora eu prefira dizer que é doutor pela boca do povo, como se considera o poeta Ascenso Ferreira. Naquele dia, como em todos os sábados, ele faria um programa na rádio local, "A Voz do Contestado", para o qual me convidou e lá fomos nós, realizando uma entrevista improvisada na qual pude falar um pouco de minha obra.

Vicente Telles é um lutador solitário. Criou e dirige a "Fundação do Contestado", cuja sede está instalada numa espécie de museu que construiu por sua conta nas proximidades da casa. Bate-se pela implantação do Parque Temático cuja "maquete" nos exibiu, expondo em detalhes o projeto. Esbarra, como sempre acontece, nas teias da burocracia e nos enredos da política, retardando a consecução de uma obra que introduziria a região no mapa turístico e cultural do Estado de forma destacada. Luta também pela preservação da memória da Guerra, desfigurada em tantos pontos e, acima de tudo, pela afirmação da identidade catarinense e pelos valores espirituais que nortearam a ação dos revoltosos. Apóia e participa do grupo Folclores Itinerante do Contestado, apresentando peças, montagens e performances de grande porte, algumas em praça pública.

Musicista e poeta, é autor de vários trabalhos sobre o assunto, alguns dos quais nos ofertou. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, foi membro do Conselho Estadual de Cultura.

Como tantos que lutam pela cultura em nosso país, ele trabalha só, enfrentando todas as dificuldades. Mas tem a vontade férrea dos idealistas e nada o fará desistir. Está convencido de que, mais dia menos dia, suas realizações integrarão Irani e região entre os mais visitados itinerários de nosso Estado.


(*) Enéas Athanázio é escritor e promotor de Justiça aposentado. O artigo foi publicado no suplemento literário A Ilha, nº 97, junho de 2006. Acesso em http://br.geocities.com/prosapoesiaecia/Lutadorsolitario.htm. Sua republicação aqui foi autorizada pelo autor.




terça-feira, 11 de novembro de 2008

O Contestado segundo Sylvio Back

Sylvio e o assistente de fotografia Haroldo Borges (Florianópolis, 11.11.2008)



“O Contestado – Restos mortais”, direção de Sylvio Back, completa nesta quarta-feira (12.11) o 15º dia de filmagens. A equipe do cineasta que já dirigiu “Guerra dos Pelados” (1970) começou os trabalhos por Canoinhas, Mafra e Porto União, seguindo por Timbó Grande, Matos Costa, Calmon, Caçador, Lebon Régis e Curitibanos, passando por Correia Pinto e Iraní, em Santa Catarina, até Marcelino Ramos (RS).

Hoje à tarde (terça, 11), em Florianópolis, perguntei a Sylvio Back qual era a motivação na retomada do tema. Ele pensou um pouco, se ajeitou na cadeira e olhou o still Cláudio Silva que o fotografava. Depois falou em “invisibilidade do Contestado”. Ou seja, o conflito que durou quatro anos, mobilizou quase dois terços do efetivo do Exército e deixou milhares de mortos, continua um ilustre desconhecido da imensa maioria dos brasileiros.

“Comecei a falar sobre o Contestado a um grupo de intelectuais no Rio de Janeiro, e lá pelas tantas percebi que eles nem sabiam do que eu estava falando”, argumenta Back. “Um me chamou num canto e perguntou se tinha a ver com os Munkers, outro indagou se haveria relação com a Revolução Farroupilha”. O manto da invisibilidade do Contestado envolve a historiografia e a mídia. Invisibilidade e desconhecimento.

Outro desafio a vencer é o da complexidade do Contestado, onde os redutos se sucedem, assim como os personagens, uns diferentes dos outros, sendo apontados inúmeros elementos que podem ter contribuído com a eclosão da guerra. “Uns 12 cineastas, não darei nomes, mas eu sei, tentaram trabalhar o tema e desistiram”. A previsão é que o novo filme do cineasta catarinense chegue aos cinemas no segundo semestre de 2009, devendo ser exibido em rede nacional de televisão e comercializado em DVD.

Equipe de “O Contestado – Restos mortais”

* Sylvio Back, diretor

* Zeca Nunes Pires, diretor-assistente

* Antonio Luiz, diretor de fotografia

* Haroldo Borges, assistente de fotografia

* Juarez Dagoberto, técnico de som

* PH, diretor de produção

* Carlinhos Aníbal Cáceres, assistente de som e microfonista

* Cláudio Silva, still (fotógrafo de cena/making of)

* Lucas Galli De Bona, eletricista

* Silvio, Motorista 1

* Roberto, Motorista 2




Sylvio, Haroldo e o diretor-assistente Zeca Pires.


Sylvio discute detalhes da produção com Zeca Píres.

José Fabrício das Neves (9)

Aspecto da fazenda Bela Vista (Irani-SC). Foto: Margaret Grando.


Irani (SC).

Fazenda Bela Vista.

14 horas, dia 17 de outubro de 1990.

Antônio Martins Fabrício das Neves é entrevistado por Eunice Cadore Franzack e Delsi Fries, integrantes do Grupo Resgate do Museu Histórico de Concórdia-SC.

Fita nº 002. Transcrição: Alvair Santos (Iti). Datilografia: Dulce Joana Weirich.

Antônio é filho de João Damas Fabrício das Neves e Gertrudes Martins de Lima.

Abaixo os principais trechos da entrevista, tal como foi transcrita. As informações entre colchetes são minhas.



Antônio Fabrício das Neves (21.3.2007). Foto: Margaret Grando.



(1ª parte)

Eunice Cadore Franzack – O senhor vem de uma família numerosa? Quantos irmãos tinha?

Antônio Martins Fabrício das Neves – Nós era onze, onze irmão.


ECF – Todos nascidos aqui em Irani?

AMFN – Todos não. Uma parte muito grande em Passo Fundo, os mais novo, os cinco mais novo, nasceram aqui, a maioria já vieram de Passo Fundo.


Tudo bem Seu Antônio, nós hoje estamos aqui lhe entrevistando para que o Senhor nos conte alguma coisa a respeito dos seus antepassados; o Seu José Fabrício das Neves especialmente, que é nosso assunto preferido da nossa entrevista, por isso como nós já anteriormente conversamos, o senhor lembra, tem alguma informação a nos dar, desde o tempo em que o José Fabrício das Neves residia em Passo Fundo? O que o senhor pode nos dizer a respeito?

De Passo Fundo, a residência deles de Passo Fundo, eu só posso dar uma informação da vinda deles para cá. Porque eu já sou nascido aqui e a maioria da, da, do que eu conheço já foi coisas que aconteceu aqui. Que eles vieram para cá mandados do monge, foi meu pai e também da família dele né, que era a mesma família do Fabrício vieram para cá, pra, indicado, era um lugar muito bom, e eles estavam um pouco chocados lá, por que na guerra de noventa e três perderam o nosso avô, né, então nessa época passou esse monge, esse José, João Maria, e indicou que eles viessem para cá, então foi aonde aconteceu que eles vieram para cá arranjaram este sertão, foram os primeiros que entraram aqui, foi essa família. Aqui não existia ninguém, quando eles chegaram aqui só tinha índio, sertão e índio, então do Uruguai para cá eles vieram fazendo pique [picada, caminho], sofrendo, até chegar aonde eles estavam indicado para eles morar.


Esse monge João Maria, residia em Passo Fundo ou vinha de outro lugar?

Esse monge João Maria porque eu ouvi eles falarem, meus pais, meus avós, ele andava... ele não residia em lugar nenhum e lá ele pousou de passagem. Dizia ele, disse para eles que ele não ficava mais que um dia num lugar. Ele só pousou na frente da casa deles, não quis cômodo nenhum, e no outro dia seguiu viagem dele a mesma coisa.


Em que ano foi a passagem do monge João Maria por Passo Fundo?

Isso foi mais ou menos em oitocentos e noventa e quatro, noventa e cinco... porque desde que ele indicou eles só trataram de, de sair, vir para onde o monge indicou.


Então em que ano vieram os seus parentes residir nesta região?

Eles vieram mais ou menos aí por oitocentos e noventa e seis, noventa e sete, mais ou menos por aí assim.


Quantas pessoas vieram?

Bom, o total das pessoas eu não sei, eu sei que eles eram mais ou menos em dez ou onze famílias, isso eu sei, agora não posso distinguir quantas pessoas tinha em cada família. E eram famílias grandes, tudo, não tinha nenhum de pouca família assim porque eram umas famílias muito grande.


E essas famílias tinham que nomes?

Eram Fabrício e Soares.


A grande maioria, ou a totalidade?

A maioria, a maioria, os que não eram mas sempre por longe eram parentes, embora não fossem descendentes da família, mas eram parentes sim.


Como é que eles chegaram até aqui?

Até Marcelino Ramos [RS], diz eles, que vieram a cavalo, com cargueiro, é só, só, só com cavalo e cargueiro né, porque estrada para carroça eu nunca ouvi eles falar que tinha. E lá eles deixaram o comboio deles e vieram a pé, e depois de muito tempo eles fizeram um pique para ir trazendo o resto da mudança que eles deixaram do outro do Uruguai, que é Marcelino Ramos.


O Senhor falou que aqui eles chegando encontraram alguns índios, o Senhor podia nos dizer alguma coisa a respeito?

Pois é, eles falaram né, que só tinha índio, que não encontraram outras famílias morando aqui não.


Esses índios eram identificados como?

Eles diz... diziam eles que eram os índios Carijó, agora não, naquela época não distinguiam a raça dos índios como hoje existe, então nós conhecíamos aqueles índios, até que alguns eu cheguei a conhecer, por os índios Carijó.


Eles eram amistosos ou eram ferozes?

Não, os índios daqui que nós conhecemos não. Eles tinham mais relação com os índios que viviam no sertão do Paraná, mas aqueles se mostravam... diziam aqueles índios que não convinha até o pessoal ter relação com eles porque eles eram perigosos.


Muito bem! E na visão do monge João Maria qual era o terreno, realmente indicado para ser colonizado?

Olha, ele indicou do Rio Iguaçu até o Rio Uruguai. Esse eram um território que ele dizia que era um terreno muito bom e estava despovoado, então ele indicou que eles deviam vir para cá, para ver se colonizavam. Com o tempo abriu os primeiros pique para ver o que hoje aconteceu que tá...


Bom, então os seus familiares instalaram-se em primeira mão nos campos de Irani.

Nos campos de Irani, é esse era os criadores, o que tinha eles distinguiam a terra de cultura e os criadores. Então aonde as terras eram magras eles aproveitavam para criar. Foi o caso do Fabrício se instalar em Concórdia, é terra de plantar, terra boa, e aqui em cima era campo, e no campo só dá para criar, então por isso é que eles tiveram essas duas paradas, paravam aqui e lá para bem de aproveitar o valor da terra que tinha, tanto para criar, como para plantar.


Então essas paradas que o Senhor diz, uma foi Concórdia, outra foi Irani.

Irani.


Em Concórdia residiu quem?

Olha residia mesmo os assessores do Fabrício, isso quase de todos os Fabrício porque eles lutavam na agricultura lá e criavam aqui, então eles tinham esse, essas duas paradas. Mas que morava mesmo efetivo era os assessores dele. Esses, esses dito coronel de fazenda.


E eles lá tomavam parte de que parte do povoado ou da região?

Não tinha parte, não tinha limite porque eles estavam, aquele pessoal antigo acreditava muito nessa história do monge, então o monge indicou esse território, e viu que antigamente diziam eles que era pequeno porque o mundo era despovoado, mas era um pedaço muito grande, então eles não tinham quantia certa para, para eles fazerem para se localizar. Esse intervalo do Rio Iguaçu até o Rio Uruguai ficou a dispor deles indicado por esse monge né?


E o coronel de fazenda Salva... Salvador Inácio, estava onde?

Esse era morto.


Era morto?

Era morto, esse morreu na guerra de noventa e três; ó, eu não sei se foi em Passo Fundo ou, eles contavam até o nome do combate onde ele morreu né, então esse foi coronel de campanha, ele foi a coronel por posto de ato de bravura.


Sim, e o coronel Luis Adão Jaques?

Bom, esse era coronel de fazenda, esse era coronel um assessor do Fabrício.


Residiu em Concórdia também?

Residiu, residiu em Concórdia.


E que localização mais ou menos o Senhor nos dá para o quartel General do Seu Fabrício das Neves em Concórdia?

Bom, era no antigo prédio do Marafon. Estava localizado justamente aonde era que o povo dizia o quartel General de Fabrício. Era bem aí, onde estava o prédio do Marafon, ali era que o Fabrício se localizasse. Que ele fazia as paradas quando ele ia daqui, da fazenda para lá. Era ali, naquele lugar ali.


O senhor identificaria hoje, em Concórdia o local?

Identificaria! Por ali onde está o Pitol por ali pra baixo ali era, ali tinha um limpo grande [área desmatada], ali ele pegava mais ou menos entre os piquete como eles diziam, os piquete era de botá os cavalos quando a gente viajava muito. Aí chegava lá eles tinha lá uns quatro ou cinco alqueire de terra meio limpo né, mas a totalidade da casa dele mesmo ali, até era uma casa mais ou menos, de madeira, mas era uma casa boa. Hoje existe a fotografia dele, na casa eu não pude ainda resgatar, mas o Vicente parece que tem. Eu falei com ele depois que a Senhora esteve aqui. O jornal daí mostra o x, onde ele tinha ali era onde ele parava, era ali.


Muito bem! O Senhor José Fabrício das Neves fazia o percurso de Irani a Concórdia, supervisionando o trabalho de seus assessores? O que o Senhor tem a nos dizer a respeito?

Bom, ele fazia esse trajeto daqui até lá, atendendo sempre o que eles tencionavam, né trabalhava direito, que não houvesse discórdia nenhuma com essa, com essa gente né, que eles queriam só prevendo para futuramente eles terem, cada um o seu patrimoniozinho né, que é o que a iniciativa dele sempre foi essa.


Em que ano o Seu José Fabrício das Neves instalou o seu quartel General em Concórdia?

Olha, esse tinha que ser mais ou menos pelo tempo que eles vieram do Rio Grande para cá, eu acho que eles instalou-se aí por mil e oitocentos e noventa e quatro, noventa e três, por aí assim né, porque isso foi depois que eles já tiveram uns quantos tempo meio já conhecendo aqui a região né, depois que ele voltou a se instalar tencionando ser definitivo, aquela localidade deles lá para cultura. Para criador aqui em cima e para cultura lá, Concórdia que eles agradaram muito do terreno né, do Rio Uruguai até Concórdia, terra muito boa, e gente que trabalhava, conheciam o que, o que era a natureza né, terra boa, terra de criar, então essa era a iniciativa deles.


Porque o nome de Queimados?

Sim. Os queimados, justamente pegou esse nome porque eles quiseram fazer um limpado para se fazer as comunidades deles ali, e a maneira mais fácil que eles acharam foi botar fogo, então por isso que ele ganhou o nome de Queimados, aquela costeira do rio ali e abrangendo mais esse terreno no jeito que hoje é Fragoso porque justamente nós conhecia mais esse terreno no jeito que hoje é Fragoso porque justamente nós conhecia mais os queimados em cima das lona, lá em cima. Lá na lona o fogo trabalhou mais então por sinal eles dizem que até sofreram bastante para poder evitar o fogo porque estava atingindo já uma área que eles não queriam, então... mas hoje já atinge de Concórdia até lá e lá eu acho que nem Queimados não é mais, já é... nem sei como é que chama aquela linha lá em cima. [Linha São Paulo, bairro Fragosos, Concórdia-SC]


[...]


Então explicando melhor, o fogo fugiu do controle das pessoas que atearam.

Sim, é, eles precisavam uma coisa e o fogo se formou muito forte né, então ele queimou um bom pedaço de terreno.


E sobre a lenda que dizem de cadáveres queimados?

Não. Aquilo ali eu acho que não é verdade, isto é, é umas emendas que ponharam porque sabe, como a gente as vezes, como meus antigos previam ia hoje, e as vezes eu mesmo estou pensando, eu acho que atrás disso aí tinha alguma coisa. Então cada um conta o seu né, puxa a sua, então por isso é que bem esses, essas coisas que às vezes não aconteceu, como ali de fato sobre o Queimado, esse eu tenho certeza que não aconteceu porque esse eu sabia que era os Queimado por intermédio do fogo lá no mato, não que queimassem gente. Porque não havia necessidade de queimar então que jogasse no mato, era sertão, ninguém ia ver, acho que isso daí não é verdade.


Conta-se também que Fabrício era uma pessoa muito boa.

Bom, é como eu falava agora, cada um puxa o seu lado, não é por ele ser meu parente, que ele é meu primo irmão. O Fabrício, mas os que conheceram eles, portanto ele teve tudo esses assessores que vieram para cá à procura dele. Inclusive meu sogro conheceu muito ele que morou comigo aqui né, conheceu ele de fundo, do tempo antigo que ele também veio do Rio Grande a muitos anos atrás e veio e veio diretamente informado pelo Fabrício. Ele contava que fiz que ele nunca viu nada, só viu um homem disposto e pronto a servir os outros, que ele diz que foi muito socorrido pelo Fabrício.


Como era o nome do seu sogro?

José Bortolin.


Bortolin?

É.


Outras coisas a respeito do seu Fabrício das Neves que o senhor possa nos dizer? A região de Fragosos, a região de Itá, adiante ainda de Irani, por onde ele circulava, quais eram as atividades dele nessas regiões?

A atividade dele sempre prevendo pra, pra cultura, pra, pra formar pecuária e dar boa agricultura, sempre foi a iniciativa deles foi essa.


Quais eram os tipos de cultura que eles praticavam?

Ó essa era a maioria roça, mas roças muito grandes, feitas nas matas, porque naquele tempo eles faziam aí duas, três colônias de roça como diz, que eles faziam, era quatro cinco colônias de roças eles faziam, e depois soltavam os porco para que fosse criar lá, fosse consumir, cada um enchia o seu paiol de milho, né, porque comércio não tinha que tirasse, que se abastecesse, que desse para o homem e depois soltava a criação para criar carne, soltava vaca, porco, era o que mais eles lutavam por isso.


Então a produção era quase que essencialmente para o consumo?

Só para o consumo deles mesmo, porque comércio aqui não tinha.

(Continua dia 13.11.2008, quinta-feira)



Fazenda Bela Vista (Irani-SC), 1984. Danilo Carneiro e Ênio Staub entrevistam Antônio Martins Fabrício das Neves. A placa que ele mostra era usada em desfiles comemorativos do Combate do Irani nas décadas de 1970 e 1980. Foto: Dario de Almeida Prado. Acervo: Sérgio Rubin (Canga).


Quadro do pintor Willy Zumblick (Tubarão-SC, 1913-2008). Obra: "Terno-de-Reis do Irani".


Imagem de São João Maria. Reprodução: Dario de Almeida Prado. Acervo: Sérgio Rubin (Canga).


Concórdia-SC em 1926. Acervo: Museu Histórico de Concórdia.


Concórdia-SC na década de 1920. Acervo: Museu Histórico de Concórdia.


Campos do Irani-SC.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Avulsas (6)

Propriedade de Juca Perão (Coronel Vivida-PR).

Propriedade de Juca Perão (Coronel Vivida-PR).

Região entre Campos Novos e Curitibanos (SC).

Propriedade de Juca Perão (Coronel Vivida-PR).

Região entre Campos Novos e Curitibanos (SC).

Coronel Vivida (PR).

O repórter-cinematográfico Marco Nascimento grava imagens de uma cachoeira em Palmas-PR.


Nota
Os indígenas da Terra Indígena de Ivaí (PR) solicitaram ao blog fotos de São João Maria para serem colocadas junto a mina d'água (nascente) que abastece a comunidade. As fotos já seguiram através da Universidade de Maringá-PR.

domingo, 9 de novembro de 2008

José Fabrício das Neves (8)

Monumento "Mãos de Cimento" (Irani-SC), feito pelo artista Mano Alvim, residente na Lagoa da Conceição (Florianópolis-SC).


Retornemos um pouco no tempo, na ocasião em que José Maria se achava no Taquaruçu, à época pertencente ao município de Curitibanos-SC, atualmente Fraiburgo-SC. Os fatos ocorridos no local, a presença de José Maria na festa do Bom Jesus, o ajuntamento de caboclos, e um inocente desafio de trova que terminou com vivas à Monarquia, tudo isso foi fartamente descrito. Nesse ponto a historiografia é razoavelmente rica. Mas existe um aspecto levantado por Pedro Felisbino, residente em Taquaruçu, com base em entrevistas com os moradores mais antigos, que precisa ser destacado.

Os detalhes estão no livro “Voz de Caboclo”. Ali Felisbino detalha o grande progresso alcançado por Taquaruçu, frente à acanhada vila de Curitibanos de então. O superintendente (prefeito) coronel Francisco Albuquerque, reprimia o movimento visando à criação de um novo município, o que lhe diminuiria o poder. Foi por isso que Albuquerque telegrafou ao governador do Estado, o lageano Vidal Ramos, seu padrinho político, no dia 21 de setembro de 1912, nos seguintes termos:

Fanatismo semelhante ao de Canudos acaba de explodir á margem de Taquaruçú, a sete léguas da vila. Inspira o movimento um individuo de nome José Maria Agostinho, que se diz ‘monge, profeta, médico e santo’. Vindo a Campos Novos, proclamou em Taquaruçú a restauração da monarquia, tendo centenas de pessoas, que armadas, o rodeiam. Promete marchar sobre esta vila, pretendendo fazer aqui seu quartel-general, de onde agirá no intuito de abranger os três estados do Sul. Para aquele ponto continua a haver uma verdadeira romaria de fanáticos, havendo já indivíduos que abandonaram família e negócios. Urge que sejam dadas medidas de repressão, de acordo a gravidade dos fatos. Lembro seja conseguido, a toda a pressa, contingente federal, que deverá desembarcar na estação Caçador, distante de Taquaruçú dez léguas, enquanto V. Ex. nos forneça elementos de força pública, para aqui, via Blumenau. Não temos nenhuma arma e nenhum cartucho para a defesa da localidade. – Albuquerque”.

Voltaremos ao assunto, pois ele é relevante para a compreensão do conjunto do movimento do Contestado. Suspeito que assim como o último líder caboclo Adeodato Ramos foi “demonizado” (segundo Paulo Pinheiro Machado) por seus próprios seguidores e outros, a ferrovia São Paulo-Rio Grande também passou por um processo semelhante. Ou seja, culpar a ferrovia estrangeira pelo início do conflito, como se tivesse sido a grande causadora, ajuda a aliviar as responsabilidades do coronelismo. Estou com essa “pulga atrás da orelha” desde que ouvi uma argumentação nesse sentido, feita em sala de aula, pelo professor Reinaldo Lohn (curso de História/Udesc). No caso do Irani, estamos percebendo que a construção da ferrovia não teve influência direta no episódio do dia 22 de outubro de 1912.

Pares de França

Euclides Felippe sustenta em seu livro a inexistência dos Pares de França, o esquadrão de elite cabocla, guarda de honra e escolta, antes do combate do Irani. E faz uma defesa vigorosa do monge José Maria, rebatendo uma a uma as acusações contra ele. Considerei relevantes os argumentos. Entretanto, lendo o Processo do Irani, se percebe que os Pares de França estavam presentes no dia 22 de outubro de 1912. A escolta de José Maria foi criada (possivelmente) quando ele deixou Taquaruçu em agosto de 1912, sob as ameaças do coronel Albuquerque e de uma força policial, retornando com ela ao Irani.

O termo “Par de França” surge ainda na fase de inquérito, iniciado um dia após o combate, citado por caboclos combatentes, militares, ou por civis que apoiaram a repressão. Joaquim Gomes, Delfino Ponte e Praxedes Gomes Damasceno, são alguns dos que chegaram com José Maria, lutando a seu lado no combate – todos Pares de França. Como diria um autor do realismo mágico, os Pares de França “saltam” das páginas do Processo do Irani e “posam” para a fotografia.

José Maria

Outro aspecto de minha admiração pelo trabalho do senhor Euclides Felippe é a defesa que ele faz de José Maria. Ele e Maurício Vinhas de Queiroz e pessoas com quem conversei nos dois últimos anos. Antônio Martins Fabrício das Neves (Irani-SC) é um que cita, por exemplo, a colonização informal da região promovida por ele monge e José Fabrício das Neves. Ao ler isso pela primeira vez, recém iniciado na pesquisa, ainda em Concórdia e sem conhecer o Irani, fiquei perplexo.

Afinal, como podia um grupo de homens sérios, acostumados com as agruras da lida campeira, desconfiados até a medula e por isso cautelosos, ir atrás de um monge “maluco”? Pois é como maluco, tarado, desertor, sedutor, profanador de moças virgens e tudo o mais que ele é tratado em 95% das publicações. Ele foi tão malhado, tão difamado, sua honra levada tão ao extremo da devassidão, que mesmo os seguidores de São João Maria costumam fazer uma pausa e diferenciá-lo de José Maria. No livro “O mato do tigre e o campo do gato – José Fabrício das Neves e o combate do Irani”, assino embaixo os argumentos de Felippe.

Por um motivo muito simples: se você desqualifica o líder, arrasta junto os que o seguem. E se os que o seguem são pessoas sérias, que trabalham de sol a sol, tementes a Deus, munidas de valores morais e éticos bem definidos, então precisamos reavaliar os personagens e seus papéis. Devemos levar José Maria a sério. Sem isso não vamos entender nada, repetindo o que outros escreveram sem checar muito.

Aviso aos navegantes (1)

Nas edições de terça, quinta e sábado próximos, dias 11, 13 e 15 do corrente mês de novembro, vamos publicar na íntegra a entrevista de Antônio Martins Fabrício das Neves ao Museu Histórico de Concórdia (Concórdia-SC) em 1990. É uma entrevista extensa, mas que pela riqueza dos detalhes e as revelações surpreendentes, precisa ser lida com atenção. Foi no contato com ela que descobri (março de 2007) o envolvimento dos primeiros moradores de Irani com a religiosidade de São João Maria, a parceria de José Fabrício das Neves com o monge José Maria e os detalhes pouco conhecidos do combate de 22 de outubro de 1912. Depois dessa, será publicada a entrevista do mesmo Antônio Fabrício das Neves ao historiador Paulo Pinheiro Machado (1997). Considero as duas entrevistas as bases para o conhecimento dos antecedentes do combate do Irani e seus personagens.

Aviso aos navegantes (2)

Os Fabrício das Neves espalhados pelo sul do Brasil devem se reunir entre os dias 22 e 25 de outubro de 2009 no Irani. A idéia é promover um reencontro desses familiares, marcando a passagem dos 97 anos do Combate do Irani. A idéia já foi adotada por Vicente Telles (Irani) e uma neta de José Fabrício das Neves residente em Guarapuava-PR, Jurema Fabrício das Neves Zunker. A mobilização está apenas iniciando. Os Perão já estão avisados. Também será feito um esforço para localizar outros descendentes de combates do Contestado/Combate do Irani, como:

* Descendentes de Bento Manoel dos Santos (Bento Quitério), casado com Clementina Bueno dos Santos. O casal residia no local onde se deu o combate. Bento e os filhos Alfredo, Saturnino e Felipe participaram do entrevero. Felipe perdeu a vida em combate.

* Família Belchior. Cândido, Antônio, João e Manoel participaram ativamente do combate e foram indiciados no Processo do Irani (Palmas-PR, 1912), tendo sido inocentados.

* Os descendentes de Praxedes Gomes Damasceno, “capitão”, como era chamado no Irani, onde lutou e saiu ferido do combate.

* Familiares de Emiliano Glória, Manoel Barreto e de um combatente do qual nos chegou apenas o apelido – Pepino Branco. Os três foram condenados no Processo do Irani, ao lado de José Fabrício das Neves, José Alves Perão e outros.

* Outro que foi condenado no mesmo processo: “Luiz de Tal, filho de João Luiz” (é assim que está na sentença condenatória).

* Familiares do coronel da Guarda Nacional Miguel Soares Fragoso.

Contatos: celsodasilveira@gmail.com

PS – As postagens têm sido acompanhadas de perto por Margaret Grando, que revisa, sugere e discute o conteúdo do material.




Área entre os rios Iguaçu e Uruguai: "território" de São João Maria.


Mapa do Estado de Santa Catarina com a divisa norte pelo rio Iguaçu.


Taquaruçu (Fraiburgo-SC). Foto: J. L. Cibils.

Taquaruçu (Fraiburgo-SC). Foto: J. L. Cibils.

Foto: J. L. Cibils.



Cenário e bonecos usados na peça “Peludos e Pelados – A guerra camponesa do Contestado”, restaurado pelo Colégio de Aplicação da UnC Caçador e exposto no Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado (Caçador-SC). O painel representa o Exército Encantado de São Sebastião. No detalhe acima, a figura do monge José Maria (os bonecos foram feitos por Maria Luiza Marques).



O repórter-fotográfico J. L. Cibils veio até minha casa apresentar a bandeira oficial do Contestado, confeccionada de acordo com a lei nº 12.060 (18.12.2001).