terça-feira, 23 de dezembro de 2008

José Fabrício das Neves (28)

Monge José Maria. Detalhe de
"Conselho de Guerra - Monge José Maria",
óleo sobre tela de Willy Zumblick.


Pós-combate
Cenas do cotidiano no Irani

Tendo ouvido as primeiras testemunhas em Palmas, quase todas implicando, de alguma forma, moradores de Irani e região, o comissário responsável pelo inquérito se dirigiu ao local do combate.
Na manhã do dia 18 de novembro de 1912, Domingos Nascimento Sobrinho apareceu na casa de Miguel Fabrício das Neves, junto com o escrivão e munido do necessário para a tomada de depoimentos.
Como Miguel não se encontrava na residência, quem acabou sendo ouvida foi sua esposa, dona Feliciana Gonçalves dos Santos, então com 60 anos de idade, natural do Rio Grande do Sul. (Processo do Irani-PI, fls 114-115)

Nada vi e pouco sei!
Dona Feliciana não se intimidou perante aqueles homens e deu o tom do que vai se observar nos depoimentos seguintes: a desconversa, o subterfúgio, a proteção. Inicialmente ela confirma aquilo que era público e notório, ou seja, que José Maria se hospedara em sua casa, acompanhado por cerca de 50 homens armados, entre eles um “Praxedes de Tal”. Mais tarde, apareceu em sua casa o coronel Domingos Soares, com outras pessoas, “não sabendo a respondendo do que se tratava”.
A esposa de Miguel Fabrício disse que na manhã de 22 de outubro de 1912, o monge e um grupo de homens se dirigiram ao Banhado Grande. Pouco depois, ouviu um forte tiroteio que obrigou a família a sair de casa e se dirigir ao paiol na localidade de Jacutinga. Um dia antes do combate, seu marido destroncara um pé e permanecera acamado, dizendo ignorar se algum morador de Irani tomara parte. Soube “apenas que no combate tinha morrido o monge José Maria e um filho de Bento Quitério”. (PI, fls 116-117)

Não conheço ninguém!
Viúva com 61 anos de idade, nascida no Rio Grande do Sul, Francisca Soares de Miranda viu tudo o que aconteceu, conhecia todos os envolvidos, deve ter visitado o acampamento de José Maria e assistido à missa que ele celebrou. Morava na beira da estrada do Faxinal dos Fabrício, por onde os homens do monge seguiram para o combate. Mas ao comissário Domingos Nascimento Sobrinho, que tomou seu depoimento na casa do comerciante João Roza, nada revelou.
Que José Maria e seus homens montaram acampamento nas casas de Thomaz e depois na de Miguel Fabrício das Neves era impossível negar. Mas ficou por aí. Entre os que combateram, conhecia apenas Felipe, filho de Bento Quitério, que morrera na ação. Miguel Fabrício não tomou parte no combate por ter destroncado um pé e se encontrar acamado. O coronel Miguel Fragoso, por outro lado, se retirou para o Jacutinga com seus homens. Também não soube dizer se José Fabrício das Neves tomou parte do combate e não conhecia nenhum morador de Irani que houvesse estado ao lado do monge. (PI, fls 129-130)

Maria Borges
A personagem Maria Borges é citada de passagem em diversos depoimentos do Processo do Irani. João Antônio da Roza, comerciante, 43 anos, genro de Miguel Fabrício, cita entre os combatentes de Irani um “moço quase negro, filho de Maria Borges, cujo nome ignora”. (PI, fls 43-46. Outro, Marciano Bentack, 45 anos, lavrador residente no Alto Jacutinga, acrescenta: entre os combatentes estava Manoel Borges, “que é filho da velha Borges”. (PI, fls 88-90)
“Que Maria Borja, era uma das mulheres que mais instigavam o povo a atacar as forças legais, em defesa do Monge”. (Nona conclusão do Inquérito Policial/PI, fls 189-192)

Praxedes ferido
Da casa de João Roza, onde estava naquele final de madrugada de 22 de outubro de 1912, Georgina Lemes da Silva, 32 anos, casada, “viu passar um grupo de cavaleiros”, com José Maria à frente montando um cavalo branco, em direção ao Banhado Grande. Não foi preciso esperar muito para que ela ouvisse “forte tiroteio que durou pouco”, seguindo-se momentos de absoluto silêncio, logo rompido pelo alarido de pessoas.
Muitos combatentes vinham de volta, “uns a pé, outros a cavalo e alguns engarupados de três a quatro homens, em um só cavalo”. Alguns estavam feridos e “vinham montados nos cavalos respectivos puxados por outras pessoas a pé”. Os vizinhos comentavam que na estrada de acesso ao Rio do Peixe, “foi encontrado muita gente ferida”.
Georgina lembrou que após o combate Praxedes Gomes Damasceno aparecera ferido na perna e passara pela casa de Miguel Fabrício para apanhar sua trenhama.
- Eu o reconheci quando contava do combate, montado em seu cavalo puxado por um indivíduo a pé, disse. (PI, fls 135-136)

Últimos momentos de José Maria
Depois de conferenciar com o coronel Domingos Soares, a quem conhecia de Palmas, José Maria mandou que um grupo de homens fosse reunir os animais espalhados pelo mato. À frente de um piquete com entre 20 e 24 homens, montando um cavalo branco que ganhara da esposa de Onofre Pereira, morador de Jacutinga, se dirigiu ao Banhado Grande. Certamente ele e seus homens estudaram a área, os diversos acessos por onde poderiam surgir as forças do Governo.
José Maria se manteve na região do Banhado Grande até por volta das 3 horas da madrugada (22 de outubro de 1912), onde deixara um piquete de prontidão, retornando à casa de Miguel Fabrício das Neves. Ali permaneceu até por volta das 5h30, quando chegou alguém avisando que o piquete já estava tiroteando com as forças sob o comando do coronel João Gualberto.

Luís, filho de João Luís
Morador do Faxinal dos Fabrício, Theodoro Ignácio da Veiga era casado, 52 anos de idade, lavrador. Dias após o combate no Banhado Grande, recebeu a visita do comissário de polícia Gonçalino, sendo intimado a se deslocar até a casa de João Luís, cujo filho, Luís, participara do entrevero ao lado de José Maria. Os dois se deslocaram até a localidade de Bonito, onde foram recebidos em casa por João Luís.
- Não sei onde o meu filho se encontra, disse o homem, garantindo que se até o fim daquele mês de outubro de 1912 não o encontrasse, iria pessoalmente a Palmas comunicar as autoridades. Theodoro e Gonçalino viraram as costas e foram embora. (PI, fls 118-119)
Luís, filho de João Luís, como figura no Processo do Irani, recebera um tiro no braço direito e vagara sozinho pelas florestas do Irani, talvez ressabiado em voltar imediatamente para casa. Por volta do meio dia de 22 de outubro, ele se encontrou com o lavrador paranaense residente em Irani Domingos (Xalico) de Almeida, 70 anos, quando este se deslocava para o Faxinal dos Fabrícios. Confirmou ter sido ferido no combate do qual participara armado de facão e pistola. E sem dar muita explicação, seguiu seu caminho. (PI, fls 38-39)
No final da tarde do mesmo dia Luís apareceu na porteira na casa de Marcolino Ferreira Gonçalves, 42 anos, gaúcho, lavrador e residente em Irani. Contou que havia participado do combate e tiroteado com as forças do Governo, ao lado do monge, tendo havido muitas mortes, inclusive a de um “oficial muito agaloado”. Depois que José Maria caiu “sem vida”, atingido por cinco ou seis disparos de arma de fogo, muitos caboclos fugiram. Luís se despediu informando que ia para sua casa. (PI, fls 86-87)
Ao passar pela propriedade de João Alves Perão em Sertãozinho de Irani, no mesmo dia, Luís não quis apear. Estava ferido e preferia seguir caminho junto com alguns companheiros. Apenas comentou os resultados do combate em que “tinha morrido muita gente”, inclusive José Maria. (PI, fls 139-140) Os rastros dele podem ter se perdido no tempo. Algum descendente, quem sabe, possa um dia fornecer os elementos para que se tenha o perfil desse combatente.








segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O monge do Santo Cerro do Botucaraí

O município de Candelária fica na Depressão Central do Rio Grande do Sul, distante 196 quilômetros de Porto Alegre e a 122 quilômetros de Santa Maria. Por volta de 1848, o imigrante italiano João Maria de Agostini esteve na região, tendo usado o Cerro do Botucaraí como refúgio. O local é visitado por milhares de romeiros toda Sexta-Feira Santa de cada ano. Em Santa Maria, na região do Campestre, ele organizou a primeira Festa de Santo Antão, até hoje realizada todo segundo domingo de janeiro.











domingo, 21 de dezembro de 2008

José Fabrício das Neves (27)

Facões de madeira usados por alunos da rede pública
municipal de Irani-SC. Desfile de 7 de Setembro de 2007.


O combate na visão dos oficiais do Regimento (Fim)

Trechos do depoimento do capitão do Regimento de Segurança do Paraná, José de Souza Miranda, prestado em Palmas-PR no dia 14 de novembro de 1912. Era filho de Tristão Antônio de Miranda, estava com 32 anos de idade, era casado, nascido no Paraná e residente em Curitiba, sabendo ler e escrever.

Seguira no dia 19 de outubro de 1912 para o Irani acompanhando um contingente de 30 praças e dois oficiais (alferes Ribeiro Francisco Borges e Joaquim Antônio de Moraes Sarmento), sob o comando do coronel João Gualberto. Seguiram juntos acompanhando a força o comissário Nascimento e da fazenda São João em diante, se achava acompanhado do tenente Busse e do alferes Adolfo Guimarães, com um piquete de 20 praças de cavalo.

No dia 22, "pelas três horas da madrugada, levantaram o acampamento de frente a casa de Manoel Isack", pondo-se em marcha rumo a Irani. No total, 50 praças e sete oficiais – o coronel comandante, ele, Miranda, os tenentes Busse e Júlio Chavier (dentista), os alferes Libindo, Sarmento e Adolfo “e mais alguns paisanos que serviam de vaqueanos”, entre os quais um Camargo, Manoel Isack, Amazonas Pimpão e “um moço de nome Tonico, que acompanhavam João Gualberto e Nascimento".

Às 6h30, mais ou menos, chegaram ao local do combate. A infantaria estava dividida em três agrupamentos de 10 homens cada, sendo um sob seu comando, outro com Libindo e o seguinte com Sarmento. João Gualberto distribuiu as forças de Libindo e Sarmento à frente, sobre uma pequena colina. Duas sessões de 10 praças de cavalaria ficaram sob os comandos de Busse e Adolfo. Na retaguarda estavam a metralhadora com um sargento e três praças e o centro, sob o mando direito de Gualberto, que tinha a seu lado o “comissário Nascimento e os paisanos que acompanharam a força”.

O capitão Miranda ficou com um “morro próprio, a esquerda, fronteiro a colina onde os inimigos começavam a aparecer e sobre os quais foi rompido renhido tiroteio; que a direita do local, onde a força foi colocada, existia uma casa que se achava abandonada, cujo flanco ficou desguarnecido; que ladeando o morro com sua força, tomou a frente, que dava para o flanco direito, do local onde se achavam os inimigos, ele, respondente, rompe o fogo, contra os mesmos, conseguindo a viva fuzilaria fazer recuar os que por um flanco avançavam". Foi por esse flanco desguarnecido que chegaram os rebeldes, "em número muitíssimo superior" e "envolveram a sua pequena força, procedendo terrível carnificina a arma branca".

Miranda retornou com sua força para o lado do morro, em cuja base se travava o combate e "verificou com um golpe de vista, o desastre ocorrido, notando achar-se o local tomado pelos fanáticos que, em número superior a duzentos, dominaram completamente". Diante disso, "só restou-lhe continuar tiroteando-os, receber em sua força os dispersos, entre eles o alferes Sarmento e soldado Patrício, ferido, aquele gravemente, e ilesos o sargento Hermínio e anspeçada Bazílio".

A partir de certa altura não viu mais o coronel João Gualberto no combate, “nem o ouvindo mais", tendo "a sua frente fanáticos, em número mais de dez vezes superior". Sem poder enfrentá-los de frente "em vista do renhido tiroteio" procurou contornar a colina em que se achava. Depois disso não teve mais como resistir e se retirou com seus homens, "tiroteando sempre, de modo a conservar o inimigo a distância, até tomar o mato", onde "internou-se uns quatrocentos metros, mais ou menos".

Disse que "achando-se estropeado, teve de parar, seguindo a força com os respectivos sargentos, para a frente, ficando com ele respondente somente um soldado de sua companhia de nome Geraldo Antônio dos Santos, que o acompanhou até esta cidade”. Disse ainda que no dia 24 de outubro, passando pela casa de Manoel Isack, soube pelo sub-comissário de Rio do Peixe, “que ali se achava o resultado do combate em o qual infelizmente” morreu João Gualberto. (Processo do Irani, fls 111-113)



O alferes e o caboclo

O depoimento do alferes Libindo Francisco Borges, então com 43 anos de idade, se concentra no pós-combate e nos remete a umoutros personagem: José Alves Perão (José Felisberto), sobre o qual falaremos na próxima postagem.

Ferido a bala no braço esquerdo e com um golpe de facão na costela inferior do mesmo lado, Libindo se embrenhou pela mata, onde encontrou o colega Moraes Sarmento em situação ainda pior. Os dois seguiram por por cerca de dois quilômetros até a beira de um córrego, onde foram encontrados por um grupo de aproximadamente 25 caboclos, todos com fita branca nos chapéus, armados de lanças, espadas e pelo menos uma garrucha. Eles apontaram as armas. Em meio a um “vozerio infernal”, Libindo ouviu:

- Entregue-se, si não morre já, ameaçou um caboclo.

Libindo desembaiou sua espada e disse que preferia a morte a entregar-se. “Nesse momento, um dos bandidos gritou” que deveria ser morto.

- Não, homem dessa natureza não se mata, disse Perão, sendo obedecido pelos demais.

Perão se dirigiu a Libindo:

- “Entregue-se amigo”, disse, convidando-o a ir ao acampamento, onde seria "tratado e curado”.

Libindo recusou, disse que só iria morto. E que só se entregaria se tivesse garantias de vida, “tirando-lhe daquele inferno”.

Em seu depoimento, Libindo diz que foi “saqueado” em “500 e tantos mil réis, revólver e espada [...]”.

Perão o levou por cinco ou seis quilômetros até a estrada para Campos Novos, onde lhe entregou 30 mil réis – “dizendo, para não morrer a míngua”.

No caminho os dois conversaram bastante. Perão, chegada a uma prosa, lhe disse que se a força do Governo tivesse 300 ou 400 homens, ainda assim “seria toda derrotada”.

- Entraram em combate apenas 360 a 400 homens. Os outros ficaram “de prontidão, como reforço”. Eles só entrariam em ação se o contingente comandado por José Maria fosse derrotado.

Perão e muitos dos homens que o acompanhavam não chegaram a entrar na luta.

- Nós ficamos na reserva, "guardando o flanco esquerdo da estrada, no sertão".

Libindo mais ouvia do que falava. E observava os rebeldes. Havia um com entre 19 a 20 anos de idade, "branco, estatura regular, vestia roupa de brim pardo, estava de botas e sem espora" Outro, com 40 a 50 anos, tinha "cor acaboclada" e "também vestia roupa parda, de botas e sem espora". Um caboclo se aproximou de Libindo e puxou conversa.

- Sou afilhado de José Maria, disse.

Garantiu que "combatera unido a seu padrinho que havia morrido em combate, ferido por cinco ou seis balas".

Segundo esse caboclo, foram as seguinte as últimas palavras de José Maria:

- Olhe para mim, que lhe sirva de exemplo.

Outros disseram o mesmo, ou seja, que haviam acompanhado José Maria desde Campos Novos e que só "escaparam de serem mortos devido a posição" em que se encontravam no entrevero.

Libindo seguiu em direção a Caçadorzinho. Na localidade de São João encontrou seis soldados do Regimento, alguns feridos. Juntos se dirigiram a Palmas. (Processo do Irani, fls 46-50)


Irani-SC, desfile de 7 de Setembro de 2007.


O relógio de Moraes Sarmento

No depoimento cujos trechos foram reproduzidos na postagem passada (nº 26), o alferes Moraes Sarmento disse que fora acolhido por Lúcio Roberto em sua casa. E que Pedro, morador da mesma casa, pedira seu relógio e ele não dera, alegando ter custado 250 mil réis. “Pedro, depois de o insultar muito, levantou-se do lugar em que estava sentado, dirigiu-se para o respondente e [...] o relógio que se achava no bolso da túnica, disparando em seguida pelo mato”. (Processo do Irani, fls 68-71)

O menor José Pinheiro dos Santos, também apresentado anteriormente, disse que após o combate encontrara na floresta “um oficial da Polícia que apresentava dois ferimentos, sendo um nas costas e outro no rosto". O oficial pediu a um caboclo de nome Pedro que o levasse a casa de Manoel Isack, no Caçadorzinho, "prometendo-lhe pagamento, no caso Pedro lhe fizesse esse favor [...], o que não foi feito devido ter Pedro pedido o pagamento adiantado". Nesta ocasião Pedro, "de lança em punho, ameaçando ao oficial, tirou do bolso deste um relógio e cinqüenta mil réis em dinheiro, deixando o oficial no mesmo lugar, encostado sobre uma pedra, dizendo que não o tirava dali, sem que o mesmo não o pagasse adiantadamente, pois eles soldados eram muito velhacos e não tinham palavra”. (Processo do Irani, fls 100-104)

Após o combate, o lavrador Emiliano Martins Moreira, 48 anos, viúvo, nascido no Rio Grande do Sul e residente no Irani, conversou demoradamente com José Alves Perão. Soube "que o monge havia combatido com a força do Governo no lugar denominado Banhado Grande de Irani e de cujo combate morreram diversas pessoas", entre as quais o próprio monge. José Felisberto (Perão) deixara "o combate com alguns companheiros, encontrando no mato alguns oficiais da Polícia, muitos feridos. Perão os auxiliou, quis levar um deles até sua casa mas ele não aceitou".(Processo do Irani, fls 40-41)

Ao solicitar a prisão preventiva dos 63 denunciados no inquérito conduzido pelo comissário nascimento Sobrinho, o promotor público Augusto de Souza Guimarães pede que sejam localizados e devolvidos o relógio de ouro do alferes Samento, levados por "Pedro de Tal ou por Manoel Bandeira", esse último falecido em combate. O relógio "consta achar-se em poder do coronel Fragoso, que conseguiu reavê-lo, sendo também tomadas as suas declarações a respeito". O promotor informa que "relativamente a uma nota de cem mil réis (100$000)", a mesma fora "resgatada pelo alferes Deocliciano, atual Sub-Comissário de Polícia do Rio do Peixe e que pertencia aquele oficial [Sarmento]". Palmas-PR, 11 de março de 1913. (Processo do Irani, fls 209-210)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

José Fabrício das Neves (26)


O combate na visão dos oficiais do Regimento (1ª parte)

Os oficiais sobreviventes do Combate do Irani – José de Souza Miranda, João Busse e Adolpho (Adolfito) Guimarães Ribeiro – se tornaram alvos de suspeitas e acusações, sendo submetidos a conselhos de investigação e de guerra e inocentados. O conselho de investigação foi solicitada por eles ao Governo do Estado, apresentando como testemunhas o comissário de polícia de Palmas-PR, Domingos Nascimento Sobrinho, Amazonas Pimpão e João Pedrozo de Camargo, além de oficiais e praças do Regimento de Segurança, num total de 18 pessoas.

O parecer do conselho registra que o combate contou com “a gente do monge José Maria, em número superior a 300 homens, sendo que a força do Regimento [...] compunha-se de 59 praças e cinco oficiais; que a gente do monge veio parte a cavalo e parte a pé, contra a pequena força, achando-se os caboclos armados com grandes facões, armas de fogo de diversos sistemas, estabelecendo-se o entrevero”. Os oficiais em questão “só se retiraram do lugar do combate depois de esgotados os recursos porque os caboclos tomaram conta da munição”.

O comandante geral do Regimento, coronel Fabriciano do Rego Barros, mandou então que os três fossem submetidos a conselho de guerra, sendo ouvidas outras nove testemunhas oculares, além dos réus.

Capitão José de Souza Miranda
Relata em escrito do dia 08.04.1913 que a coluna sob seu comando, mesmo “estropiada e em terreno desconhecido, travou combate com a horda de fanáticos do monge José Maria em numero superior a 300, ficando assim a nossa força à razão de um homem para cinco ou mais e onde, nas circunstâncias de momento, após esgotar todos os meios de resistência e a munição, retirei”.

Tenente João Busse
Refere-se à “sanguinolenta refrega” entre uma “pequena fração do Regimento de Segurança” e a “horda de fanáticos chefiada pelo famigerado monge José Maria”. Diz que as 27 testemunhas ouvidas confirmaram que soube cumprir o dever.

Alferes Adolpho Ribeiro Guimarães
Rebele as acusações de “fraqueza”, “covardia” e “desorganização” do Regimento no combate de 22 de outubro no Irani. O encontro com a “horda” de José Maria aconteceu em “campo desconhecido”, onde a força foi surpreendida “no ataque por todos os flancos” e ficando exposta “às perigosas contingências que os acidentes do terreno e o número dos atacantes constataram”.

Os cerca de 60 homens sob o comando do coronel João Gualberto estavam “mal armados e estropiados por marchas forçadas por caminhos ínvios, em terrenos acidentados cobertos de mato espesso que nos impedia de ver o que nos esperava à frente, formando antes um contingente para simples diligencia policial, e nunca uma coluna de guerra aparelhada convenientemente para entrar em combate com forças irregulares”, assinala o oficial. “Não é de admirar em tais circunstancias fossemos por eles desbaratados, sem embargo de bravura, do denodo, da temeridade com que, desde o nosso malogrado e intrépido comandante até o mais humilde dos nossos soldados, nos batemos, copo a corpo e a arma branca, com mais de 300 bandidos, afeitos a todos os crimes, à luta irregular e assalto a traição.”

Fonte: ROSA FILHO, José Alves da. Combate do Irani. Curitiba: Associação da Vila Militar, 1998.




Moraes Sarmento

1)
O combate estava no auge. “O alferes Moraes Sarmento, com a face quase bipartida, combalido como morto sobre um lamaçal de sangue, ali ficara dois dias entre a morte e cruciantes padecimentos de ferido abandonado. Sem energias para se levantar, o alferes Sarmento fora visitado pelos jagunços que ficaram senhores do local, fora despojado do relógio de ouro que agradara a um fanático e só não fora morto ‘para sofrer mais um pouco’, na expressão de alguns jagunços que vieram explorar os destroços. Uma velha matuta que se condoera do triste desígnio do alferes, levou-o para o seu ranchinho [...]”. (BANDEIRA, Euclides. Respingos Históricos. Curitiba: Topografia Favorita, 1939. p. 130).

2)
“O alferes Sarmento, com indômita coragem, atirou-se ao mais aceso da luta, tão entusiasmado que quase nem sentiu os golpes que recebia pelo corpo ensangüentado. Numa arremetida furiosa, um jagunço conseguiu desferir-lhe violenta cutilada no rosto, extirpando-lhe o olho direito. Tão forte foi o golpe que ele deixou cair a arma no chão. Com a vista vazada, combalido como um morto sobre um lamaçal de sangue, o bravo oficial caiu sem sentidos ao solo. Um caboclo chegou perto do corpo inerte e levantou o facão para estraçalha-lo. Num relance, o soldado Romão dos Santos viu o perigo e atirou, acudindo a tempo, salvando sarmento do golpe mortal e subjugando o matuto”. (ROSA FILHO, José Alves da. Combate do Irani. Curitiba: Associação da Vila Militar, 1998).


A versão no Processo do Irani

Depoimento do alferes Joaquim Antônio de Moraes Sarmento (Processo do Irani, fls 68-71). Palmas-PR, 4 de novembro de 1912. O atual patrono da Polícia Militar do Paraná estava com 30 anos de idade na ocasião do combate no Irani, era casado, nascido no Ceará e residente em Curitiba.
Resumo

Estava na frente da linha de atiradores, logo rompida pelas forças do monge, sendo atingido no olho por uma facada e posto fora de combate, desacordado. Depois se recupera, contorna uma “casa situada no local do combate” e avista apenas o capitão Miranda tiroteando e muitas praças por terra “assim como muitos fanáticos do Monge”. Não viu o coronel João Gualberto.

É socorrido pelo capitão Miranda, que amarra “um lenço no ferimento”. E “devido ao estado de abatimento do respondente, e a conselho do capitão Miranda, o respondente internou-se no mato e após caminhar uns 15 minutos, mais ou menos, o respondente encontrou-se com o alferes Libindo, que também se achava ferido”. Eles seguiram pelo mato e ao passar por um pequeno arroio foram cercados “por um grupo de fanáticos em número de seis a oito”.

Os rebeldes perguntaram aos dois “se ofendiam a eles fanáticos, tendo o respondente respondido que não os ofendia”. Os “fanáticos se aproximaram e um deles afirmou: ‘Você está morto, mas não tenha cuidado, se você morrer, nós lhe damos sepultura aqui, levamos seu companheiro e depois voltamos buscar você’”. Os homens seguiram com Libindo e um permaneceu com Moraes Sarmento que, “depois de o haver insultado, pediu que o respondente lhe desse um relógio de ouro que consigo trazia”.

Antes disso, Moraes Sarmento entregara a “José Felisberto, a quantia de cem mil réis” que tinha em seu bolso “para que este o guardasse, em virtude das promessas [...] de transportar o respondente para sua casa, o que não fizeram, tendo o respondente permanecido caído naquele lugar” até as 17 horas, “quando reanimou-se e prosseguiu pelo mato até o anoitecer, tendo encontrado um rancho de monjolo onde o respondente pernoitou”.
[É importante destacar que os cem mil réis foram deixados por José Felisberto com um comissário de polícia para ser devolvido ao dono].

Ao amanhecer do dia 23, se pôs a caminho “e sem saber por onde ia saiu no mesmo lugar em que os bandidos o tinham deixado”. Continuou pelo mato, “perdeu-se mais uma vez, tendo porém a felicidade de tempos depois avistar uma casa, e aproximando-se desta”, morada de Lúcio Roberto, onde foi acolhido e tratado até a chegada de um alferes farmacêutico no dia 29.

No dia 30 seguiu para Palmas, aonde chegou no dia 3.11.1912. No depoimento, disse que Pedro, morador da casa em que foi acolhido, pediu seu relógio e ele não deu, alegando ter custado 250 mil réis. “Pedro, depois de o insultar muito, levantou-se do lugar em que estava sentado, dirigiu-se para o respondente e [...] o relógio que se achava no bolso da túnica, disparando em seguida pelo mato”.