sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

José Fabrício das Neves (48)

Familiares de Afonso Antunes das Neves (segundo a partir da direita),
filho de José Fabrício. Acervo: Assis Antunes das Neves (Pinhão-PR).

A diáspora dos Fabrícios

Ao ser confirmada a morte de José Fabrício, teve início a expulsão dos caboclos da região do atual município de Concórdia. “Desprotegidos”, assinala Ferreira (1992, p. 79), os antigos moradores “ficaram sujeitos aos novos métodos adotados, restando duas opções: deixar suas posses ou tornarem-se empregados dos imigrantes que começavam a chegar”. Eram “a cobiça e a espoliação que vinham junto com o progresso”.

A empresa colonizadora Mosele, através de “seus encarregados pela segurança”, assegurou os despejos com métodos “geralmente violentos”. Assim, “a ferro e fogo, o Alto Uruguai Catarinense ficou ‘limpo’ para os imigrantes”. Por volta de 1925, segundo a mesma fonte, existiam entre dois e três mil caboclos, “alguns armados, não aceitando a demarcação dos lotes”, e outros “protegidos pelo acordo de Fabrício, conquistando legalmente suas terras junto a Brazil Development and Colonization Company”. Os “mais valentes dentre os caboclos”, como Fernando Osório Marques da Silveira, Brasil Bueno e Joaquim Barroso, “passaram a exercer o papel de capangas da Companhia”. Segundo Kurudz, os caboclos que até antes da morte de Fabrício se mostravam “humanitários e até mesmo infantis”, depois disso mudaram de postura. “Se tornara mais complicado após a morte de Fabrício [a relação com os caboclos], mesmo com a oferta de preços especiais, requerendo, sendo o entendimento da Companhia, medidas drasticamente mais fortes”, ou seja, a expulsão (FERREIRA, 1992, p. 80).

Um grupo desses caboclos, liderado por Teodoro Tristão, José Paulino e Vergílio Castilho, resolveu se deslocar para as regiões de Irani-SC e Pato Branco-PR. “Era impossível resistir. O sofrimento e as mortes do Contestado ainda estavam presentes em suas memórias”, enfatiza Ferreira (1992, p. 82).

Tropa formada por militares, capangas da Companhia Mosele e cidadãos para ‘caçar’ jagunços, antigos combatentes do Contestado.
1- Na porta da janela está Dogello Goss, Almerinda Goss, Jairo Goss e Djalma Goss.
2- Na janela levantando a cortina deve ser a empregada.
3- Sentado na escada, com o chapéu na cabeça é o João Estivalet Pires, então professor, depois secretário da prefeitura (gestão Dogello Goss), depois deputado estadual, presidente da Assembléia e conselheiro do Tribunal de Contas.
4- Abaixo do Pires, com a capa redonda está o Domingos Machado de Lima. (ex-prefeito de Concórdia).
5- Em pé no meio, parece que é o velho Crippa;.
6- Na escada com o chapéu na mão está o Dr. Arno Heschel, juiz de direito, futuro desembargador e nome de rua em Florianópolis.

As informações encontram-se no verso da fotografia. Dogello Goss foi prefeito nomeado do município de Concórdia, para o período entre 30 de março de 1937 até 12 de dezembro de 1945. Domingos Machado de Lima foi vereador em Concórdia, pelo Partido Social Democrático - PSD entre 1951 e 1955, posteriormente, foi eleito vice-prefeito de Concórdia para o período entre 31 de janeiro 1951 até 31 de janeiro de 1956. Domingos Machado de Lima assumiu como prefeito eleito para o período de 31 de janeiro de 1961 até 31 de janeiro de 1966.

A foto e a legenda são cortesias de Carlos Comassetto para o Fragmentos do Tempo. Foto do arquivo particular Gil Goss (Concórdia S.C).


Rumo ao Paraná

Por outro lado, cerca de 30 famílias mais ligadas a José Fabrício, se juntaram à família do falecido em busca do exílio, formando a caravana da diáspora com muitos carroções abarrotados de pertences, homens montados ou a pé, todos no rumo da localidade de Patcho Velho, no atual município de Porto União-SC, na divisa com o Paraná, segundo relato de um neto de José Fabrício, Assis Antunes das Neves (filhos de Afonso).

A comitiva era liderada por Afonso Antunes das Neves, então com 17 a 18 anos de idade, mas homem formado, experimentado na companhia do pai desde cedo, quando ainda tinha por volta de 11 a 12 anos. Segundo relatos dos familiares, ele não gostava do que via e ouvia nas andanças com o pai, e por isso não guardou boas lembranças daquele tempo. Passou o resto de sua vida ocupado em cuidar da família, fazendo um esforço para esquecer o passado. “Meu pai era muito resguardado”, lembra Assis. Sua esposa, Marli Terezinha Antunes, 62 anos, filha do imigrante de origem ucraniana João Lichevicz, lembra que “ainda menino [Afonso] seguia o pai, via o pai correr risco de vida”. Talvez por isso continuasse o resto da vida “quieto, não era um homem alegre, bem sério”, diz dona Marli.

Afonso pode ter ficado um pouco desnorteado com a morte do pai, principalmente da forma como ela se deu. E por algum motivo, demorou para contar à mãe, Crespina Maria, o que havia ocorrido com Fabrício. “Foi o Thomaz que insistiu para que ele contasse”, destaca Assis. Não existem informações mais precisas sobre o tempo de permanência da família na região após a morte do caudilho, apenas que “o Marcelino Ruas mandou que meu pai sumisse e levasse a família junto”.

Antes de partir, Afonso e dona Crespina Maria reuniram cerca de 30 famílias de caboclos ameaçadas ou já expulsas de suas terras, aqueles que “ficaram sem o Fabrício”, observa Assis. Numa das carroças, Afonso empilhou diversas caixas de rifles e munição que pertenciam a José Fabrício. Elas poderiam ser úteis caso precisassem se defender, o que não foi necessário. Anos mais tarde, foram descartadas no rio da Barra, no município de Marquinho-PR. Afonso levou ainda um revólver que jamais usaria, mesmo no tempo em que todos andavam armados. “Deixaram o Irani sem nada. E eram gente muito rica. Vieram pobres”, acrescenta dona Marli, que conviveu e conversou muito com Afonso.

Dona Crespina, que se manteve todo o tempo ao lado do filho e demais parentes e não voltou a se casar, “via o sofrimento dele” desde os tempos em que acompanhava o pai. “Naquela época estava sempre de prontidão para sair ou se esconder”, segundo dona Marli. “Tinha muito medo”, diz, de origem incerta. E “respeitava bastante a Crespina”. Era comum que permanecesse “horas e horas olhando as coisas, sem falar nada”.

Segundo Assis, a jornada de seu pai e sua avó terminou na localidade de Patcho Velho, em Porto União-SC, onde Afonso se casou com Angelina Vera, com quem teve seis filhos: Antônio, Geraldo, Emílio, Assis, Hortência e Sebastião – os três últimos nascidos no município de Marquinho-PR. Depois que Angelina faleceu, na década de 1940, Afonso se casou com Jorgina Camargo (filha do tropeiro de José Fabrício, Ozires Marques), tendo dois filhos, Paulo Camargo Antunes das Neves, 60 anos, e Daniel.

Em Marquinho-PR, Afonso se dedicou à lavoura, plantando milho e feijão e criando porcos, informa seu filho Paulo. Gostava muito de churrasco, sobretudo de costela gorda, tomava chimarrão com freqüência, mas não usava a indumentária gaúcha. Devoto de São Jorge e extremamente religioso, batizou todos os filhos e respeitava a Quaresma, época em que não se ouvia música, e “quem tinha instrumento em casa, guardava”, assinala Assis. O jejum nessa época era sagrado. Lia sempre a Bíblia, mas só ia à missa uma vez por mês, pois a capela da região era distante. Ouvia a rádio Gaúcha quase todos os dias e não perdia o programa “Farroupilha”, tendo sido fã de Teixeirinha.

Apesar de estar sempre amuado, triste, Afonso era “caprichoso”, segundo o filho Assis. Ou seja, “depois que a minha mãe morreu, ele não deixou os filhos se espalharem. Ficaram todos trabalhando na roça, derrubando a mata com machado”, assinala. As irmãs e o irmão de Afonso que vieram da região de Irani após a morte de José Fabrício, também se instalaram pela região. Hortência se casou com Rogério Vera, irmão de Angelina, primeira esposa de Afonso, tendo morado muitos anos no município de Cruz Machado-PR. Elíbia foi morar em Guarani-Açu depois de se casar. Domingos, que teve 18 filhos de seu casamento com Mantina Camargo, do grupo que veio de Irani, morreu no início da década de 1990. “Era animado, contador de casos, tocador de gaita”, lembra Assis.

Na época em que Afonso apresentou um ferimento na perna e precisou de tratamento, o filho Assis já estava morando em Pinhão, casado com Marli desde o início da década de 1960. Ele foi levado para lá. Mais tarde chegou dona Crespina, voltando para o lado do filho e assim permanecendo até perder a visão, quando retornou para a casa de Hortência, em Cruz Machado. Ali permaneceu até morrer por volta de 1961, tendo sido enterrada no cemitério da localidade de Palmeirinha-PR. Ela também não gostava de “comentar o passado, era quieta, pelo sofrimento que passou. Ela e o Afonso tinham muito medo. Havia alguma coisa que se viesse a público, relacionada com a vida que José Fabrício tinha levado... do que aconteceu com ele”, observa dona Marli.

Afonso continuou em Pinhão, morando na localidade de Faxinal dos Ribeiros, cuja casa ainda está de pé, ocupada por seu filho Daniel. Segundo relato de Assis, “a morte do meu pai foi a coisa mais linda”. Ele jantou, sentou para escutar a rádio Gaúcha como sempre fazia e foi se deitar. Já estava dormindo quando o filho Daniel ouviu um gemido vindo do quarto, se levantou para ver o que estava acontecendo e encontrou o pai morto. Afonso está sepultado no cemitério de Faxinal dos Ribeiros, no meio de pinheiros e campos de lavoura.


Referência

FERREIRA, Antenor Geraldo Zanetti. Concórdia: o rastro de sua história. Concórdia: Fundação Municipal de Cultura, 1992.


Assis e dona Marli no interior da fábrica de erva-mate (Pinhão-PR).

Familiares de Assis Antunes das Neves em dia de casamento.

Jurema F. das N. Zunker, neta de José Fabrício, filha de
Hortência, e Reinaldo Antunes (bisneto), em Pinhão-PR.


Hortência Antunes das Neves, filha de José Fabrício, entre as
noras Larissa e Irene. Cruz Machado-PR, 1977.
Acervo: Jurema Fabrício das Neves Zunker (Guarapuava-PR).

Hortência Antunes das Neves com familiares.
Acervo: Jurema Fabrício das Neves Zunker (Guarapuava-PR).


Paulo Antunes das Neves, neto de José Fabrício e residente em
Pinhão-PR, mostra a chaleira usada pelo avô para tomar chimarrão.



terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O caudilho do Contestado
A reconstituição de um assassinato (*)

Por Dante Martorano

Ilustração: Clóvis Medeiros.

Como anda a pesquisa histórica em Santa Catarina? Como contar a violência dos primeiros tempos do Contestado? A narração de hoje, sóbria e verdadeira se assenta no testemunho oral de muitos que contemplaram as feições ou ouviram de seus pais o másculo e amedrontador retrato do caudilho José Fabrício das Neves, com torpeza assassinado à custa de um ardil traiçoeiro.

- Apeie-se Fabrício...

- Comandante Marcelino, com honra aqui estão os seus convidados. Início do quase discurso do caudilho. Ereto na postura de destemor, à altura dum acampamento de beligerantes, José Fabrício nos músculos ostentava o vigor do corpo, nos traços de leveza, no rosto existia coragem.

Dava-se assim, àquela manhã de 31 de março de 1925, o encontro de dois companheiros de armas. Marcelino Ruas e José Fabrício das Neves. Cada um comandante de seu próprio corpo de combatentes, que de volta, a cavalo, retornam de São Paulo. Não viajaram com o Batalhão Bormann, formando pelo Coronel Passos Maia, que embarcara no Erval. Todos, entretanto, haviam marchado contra a insurreição de 1924. Apoio catarinense a Bernardes. Mas logo derrotados os revoltosos, não foi dado vez aos nossos três contingentes de combater os paulistas.

Linda manhã a de 31 de março de 1925. A pouca distância do Banhado Grande, fileiras de barracas armadas pelos homens de Ruas brilhavam ao sol. Perto dali os jagunços haviam “picado” a facão o cadáver do Coronel João Gualberto e mutilado os corpos dos soldados paranaenses. Perto também da cova rasa em que a fé jagunça depositara na ressurreição do monge José Maria.

José Fabrício das Neves e todos os homens de seu estado maior deram cuidado especial na preparação à visita. No caudilhesco cavalheirismo a um convite corresponde o zelo e o esmero na aceitação. Roupas da gala sertaneja. Rusticidade na beleza selvagem dos cavalos fogosos. As melhores armas na cintura. Espadas brilhando na guerreira ostentação.

Mas se desmoronou toda esta sobranceria minutos após a chegada. A um gesto de Ruas, dezenas de homens armados caíram sobre os visitantes. Desprevenidos e embasbacados não puderam reagir. Desarmados, presos, amarrados a cordas e num instante amordaçados. Só a convulsão do ódio e da revolta lhes estremecia os corpos no desespero.

Vida de turbulência, valentia e dominação fora até aquele momento a de Fabrício. A gente esparsa nos campos do Irani impunha a inflexibilidade de comando. Muitos eram seus parentes. Outros prepostos. Todos vassalos.

Em todas as terras cortadas pelo rio Irani o domínio de Fabrício – atingia bravos maragatos ou a seus filhos. Vencidos federalistas do Rio Grande do Sul, no último decênio do século passado [XIX] fugitivos da repressão. Bastou-lhe a travessia do Uruguai para se a acoitar nos ínvios sertões do Contestado. A pregação do monge João Maria fora estímulo para a libertação da miséria, na Terra da Promissão que o místico adivinhara no Irani.

Naquele dia, carregando como fera, atarraxado quase no lombo da mula cargueira, José Fabrício das Neves tangido foi para fora do acampamento de Ruas. Imediatamente após serem presos, ele e seus homens foram escoltados por um destacamento cruzando os caminhos da Fazenda do Campo Comprido, de Pelegrino Silvestre. A poucos quilômetros estava o acampamento das forças comandas pelo próprio caudilho prisioneiro. Muita gente que tudo enfrentava! Sem medo de nada e de ninguém. Ávidos da sangria de seus inimigos. Mas o cortejo se desviou na ocultação do humilhado caudilho, como bicho amarrado.

José Fabrício das Neves arrastado em seus próprios caminhos. Mesmo onde força alguma antes ousara enfrentá-lo. Terras agrestes em que tiniu o ferro de sua espada. Ali no verde daqueles campos, do emaranhado dos fachinais, na fertilidade daquele solo, à vista dos vales das grotas dos sertões do Contestado. Pedaço de Brasil onde a lâmina das armas de José Fabrício das Neves atestava o destemor, a violência e arrogância de quem deixa atrás de si e de seus rastros, a legenda da bravura.

Quando todas aquelas imensidões eram contestadas, o Paraná não conseguiu dali desalojar os Fabrícios. Nem a troca proposta das terras que eles se apossaram, por outros legalizadas na margem direita do rio do Peixe. Resistiram ao banimento. Daqueles paranaenses acirrados na paixão da luta pelas terras do Contestado, mais tarde fizeram com que nunca mais pudessem os Fabrícios terem o perdão. Era a lembrança de seu apoio ou tolerância ao monge José Maria. O ressentimento contra a gente do Arraial do Irani – pela imprensa de Curitiba dada como formado por ‘invasores catarinenses’. Muitos dos homens do caudilho chegaram a brigar junto com os fanáticos.

Fabrício teria entendido àquela manhã tudo como vingança? Das famílias dos mortos paranaenses no entrechoque com os jagunços? Porque fora preso? Perguntas sem respostas para ele e não encontradas pela pesquisa. Boatos houveram e ainda persistem. Gente de Palmas teria posto a prêmio as orelhas do caudilho.

Apearam o amordaçado caudilho no lugar denominado Caçadorzinho. A uma légua mais ou menos do acampamento de Marcelino Ruas. Descidos – das mulas e amontoados em seguida todos os presos. Quem de longe ouviu tantos tiros imaginou o festivo fogo de saudação. Mas das carnes de Fabrício e de seus homens que receberam o chumbo, esvaiu-lhes o sangue.

O pior é que a ciência deste assassinato não se limitou àqueles sertões do antigo Contestado, Não ficou só materializado nas covas ali mesmo abertas e cobertas com pedras. Andou pelo Brasil inteiro a notícia. À Ilha, ao Palácio do Governo, chegaram telegramas candentes de recriminações e de revolta...

Até do marechal Rondon, veio via telégrafo, a repulsa à traição e ao assassinato de José Fabrício das Neves. Valente em Armas como o Exército Nacional, na sustentação da legalidade personificada no governo do Presidente da República – Arthur Bernardes.


(*) Artigo publicado no jornal O Estado (Florianópolis-SC, 24.7.1983), junto com a ilustração de Clóvis Medeiros. Acervo: Biblioteca Pública de Santa Catarina.


sábado, 7 de fevereiro de 2009

José Fabrício das Neves (47)

Cuidados com um sepultamento


Lançados num poço ou parte mais profunda do rio Irani, os corpos de José Fabrício das Neves e seus homens só foram retirados e enterrados cerca de seis dias depois da emboscada que resultou em mortes e degolas. O enterro foi providenciado por Thomaz Fabrício das Neves, irmão de José Fabrício por parte de mãe, com a ajuda de João Damas Fabrício das Neves, conta o filho Antônio Martins Fabrício das Neves, junto com "outros Fabrício".

Depois que Marcelino Ruas e seus homens se retiraram, “foram procurar, acharam ele jogado dentro da água”, junto com os demais, segundo Antônio. Em março de 2007, o túmulo retangular cercado de taipa, com cerca de três por onze metros, estava coberto pela vegetação e por isso de difícil localização. Junto há uma cruz de madeira, muito antiga. “Esse Thomaz Fabrício plantou flores, tem roseiras lá da grossura desse cano, subiu nas árvores, então floresce as árvores em cima”, acrescenta Antônio.

Estado-maior de José Fabrício das Neves em dia de festa.
Catanduvas-SC, 1919. Acervo: Cecília Boroski (Concórdia-SC).

As roseiras continuam no local, próximo a ponte da BR-153 sobre o rio Irani, com acesso dificultado devido a extensão de uma cerca de arame farpado até o curso d’água. Ali, José Fabrício das Neves foi colocado numa cova separada. Em outra cova, um pouco maior, seus principais auxiliares. Um deles, Agostinho Ferreira, aparece de terno e gravata em uma foto ao lado de José Fabrício. José Gomes informa que nas ausências do caudilho, ele assumia o comando das atividades. “Era um homem muito bom, deixou lembrança para muita gente”, salienta Gomes.

Na foto já referida, também de terno e gravata, ao lado de Agostinho, está Cesário de Mattos, um dos “três irmãos Cesário” citados por Antônio das Neves. Eles teriam ficado juntos no túmulo e sobre os quais existem poucas informações, além de que seriam homens de extrema confiança de Fabrício. Outro que foi degolado e enterrado no mesmo túmulo é Teobaldo Madeira.

“Dentre os mortos”, informa outra fonte, estava Augustinho Frederico Wilke, “que se achava em Fragosos quando da visita do Sr. Victor Rauen a Itá em 1923”. (SILVA, 1987, p. 63) Paulo Antunes das Neves, neto de José Fabrício e filho de Afonso, residente em Pinhão-PR, diz que Wilke era conhecido por “Augustinho Pitoco”, um “segurança” do caudilho, e que teria sido o autor da morte do monge Nemézio, citado anteriormente.


No local podem estar sepultadas outras pessoas, mas foram esses os nomes que ficaram na memória oral ou registros escritos. Durante muitos anos o túmulo foi visitado por amigos e familiares. A vegetação era retirada periodicamente e a cruz de madeira substituída ao envelhecer, entre outros cuidados. Entre os que visitavam o túmulo, estava Vicente Lemos das Neves, casado com Francisca Martins Fabrício, que levava a família ao local pelo menos uma vez por ano, sempre em 20 de março, a data em que, na memória de Elvira Dalla Costa, filha do casal, seu antepassado teria morrido.

Vicente Lemos das Neves com a esposa Francisca e os filhos.
Dona Elvira está junto ao pai. Acervo: Vicente Telles (Irani-SC).

Nessas ocasiões, levavam muitos biscoitos, doces variados e vidrinhos com água, “porque eles morreram com sede e com fome”, diz dona Elvira. Estendiam uma “lona ou manta” no chão para que todos pudessem se acomodar e passavam o dia ali rezando. “O pai mandava levar foice para limpar o cemitério”, assinala. Certo dia, uma irmã de Elvira, Terezinha, se engasgou com um pedaço de casca de milho de pipoca e o pai mandou que ela fosse até o túmulo de José Fabrício. “O pai falava que aquelas águas”, armazenadas nos vidrinhos e que ficavam no local, eram “milagrosas, curavam qualquer coisa que se queira curar”.


Cerca impede acesso ao local do túmulo de José Fabrício.


Procurando sepulturas

Quando fomos ao Irani-SC pela primeira vez, em março de 2007, buscando os rastros da participação de José Fabrício das Neves no combate inicial do movimento do Contestado, tinha em mente a localização de seu túmulo. Antônio Martins Fabrício das Neves, numa entrevista ao Museu Histórico de Concórdia (Concórdia-SC), faz diversas referências a esse túmulo, ao pé de roseira que foi plantado no local e sua localização nas margens do rio Irani, próximo a uma ponte.
Depois de conversar com Vicente Telles e almoçar num restaurante junto ao trevo das rodovias BR-282 e BR-153, decidimos eu e Margaret Grando procurar por conta própria o túmulo. Seguimos na direção da ponte sobre o rio Irani pela SC-282, a mesma que liga a Capital do Estado, Florianópolis, ao Extremo-Oeste catarinense, na fronteira com a Argentina. Ao desembarcar do carro e observar o local, notei a falta de alguns elementos descritos pelo sr Antônio. Talvez não fosse alí, pensamos.
Avistamos um grupo de pessoas próximo a um restaurante e nos dirigimos até elas.
- Boa tarde!
- Boa tarde! Podem chegar.
- Tudo bem com o senhor?
- Tudo bem enquanto estivermos apertando as mãos.
Explicamos a ele nosso interesse, a localização do túmulo de José Fabrício das Neves.
- Mas não é nessa ponte...! Fica perto da ponte sobre o rio Irani na BR-153 - a famosa Transbrasiliana.
Ele se dispôs a nos acompanhar até o local. Foi até sua casa, colocou botas e um facão na cintura.
- Vamos lá!
O carro ficou estacionado próximo a ponte, com o pisca-alerta ligado. Tivemos que nos esgueirar por uma cerca de arame-farpado para entrar na área da Celulose Irani e alcançar a margem do rio. Seguimos por dentro da densa mata ciliar.
- Se a gente for por aqui não tem como não achar...
E seguimos. Com o facão ele abria caminho. As árvores encobriam o sol das 15 horas diminuindo o calor. Havia uma profusão de flores nativas, orquídeas, bromélias e outras espécies pelo caminho. Cerca de 400 a 500 metros a frente ele ficou em dúvida, olhou para os lados, mas seguiu em frente. Os pássaros trinavam.
- Chegamos!
Foi então que avistamos pela primeira vez um retângulo de taipa escondido entre árvores de médio e grande portes. Uma cruz de madeira esverdeada por musgos assinala o local. Ao lado uma vela apagada. Mais a frente restos de velas derretidas. Sinais de que o túmulo continua sendo visitado. Margaret tratou de medir com passos a área: três por onze metros, aproximadamente.
- Vem muita gente pescar aqui, informa o senhor que nos levou até o local.
De fato, existem lixos em vários pontos e uma área sem vegetação junto ao rio. Também há um pé de louro tombado, escavado em vários pontos para ganhar placas sem nenhuma inscrição.
- Dizem que cada placa é para um morto...
Permanecemos no local por cerca de meia hora, fizemos fotos e fomos embora. Nossa missão por aqueles dias estava cumprida. Não retornamos pela mesma trilha. Cerca de 30 metros adiante há uma estrada paralela ao curso do rio, onde existem três pés de butieiros "indicando" o local do túmulo. E retornamos ao ponto em que havíamos deixado o carro por esse caminho, ladeado pela mata ciliar à direita e uma floresta de pinus à esquerda.


Nota

O primeiro texto - Água milagrosa -, integra o livro O mato do tigre e o campo do gato: José Fabrício das Neves e o Combate do Irani (Florianópolis: Insular, 2007).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

FRAIBURGO

Área do primeiro reduto de Taquaruçu. Foto: Marco Cezar

Combatentes do Contestado
recebem homenagem da Câmara


Segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009. A Câmara Municipal de Fraiburgo-SC, realiza sessão solene em homemagem aos combatentes mortos da Guerra do Contestado. A iniciativa inédita acontece na emblemática Taquaruçu, localidade que abrigou o "núcleo duro" da revolta - os portadores da religiosidade de São João Maria, onde residem muitos descendentes dos chamados "jagunços" do Contestado. Participação especial de Vicente Telles, pesquisador, músico e compositor, residente em Irani-SC, que vai realizar uma performance com o tema central da sessão - o massacre de 1913 em Taquaruçú.


Presença em Frei Rogério

Canhão do Museu do Jagunço. Foto: Marco Cezar.

Domingo, 8 de fevereiro de 2009, 15 horas. O município de Frei Rogério (antigo Taquaruçu de Cima), realiza a 1ª Festa dos Frutos da Paz, visando "a integração das culturas existentes no município", explica Israel Mello Ferreira, secretario municipal de Administração e Finanças. "Em virtude da Guerra do Contestado ser uma marca importante na história do município e na vida da população cabocla", explica, o evento vai abrigar uma exposição do acervo do Museu do Jagunço, localizado em Taquaruçu. Também vão ocorrer apresentações de dança com temática do Contestado.


Músico do Contestado em sua casa no Irani-SC.

Um perfil de Vicente Telles
"A história ainda respira
"

Texto publicado no dia 23.1.2009 no site de O Jornal (Concórdia-SC).

A História do Contestado é uma chama viva, que ainda não apagou, apesar de tudo". Assim o historiador Vicente Telles resume o sentimento sobre a situação da área considerada como berço do Contestado em Irani. As obras previstas para formarem o Parque Temático do Contestado estão paradas há pelo menos dois anos. Em 2012 o Combate do Irani completa 100 anos e a intenção do historiador é retomar os eventos cívicos alusivos à guerra e implantar o ensino da história do conflito nas escolas da região.

Telles explica que o projeto do Parque Temático previa inicialmente a construção de nove módulos que retratassem os aspectos históricos da guerra armada entre caboclos e coronéis, ligados ao governo federal, motivada por conflitos sociais e que resultou na morte de seis a nove mil pessoas, principalmente caboclos. Eles habitavam o local e buscavam a garantia das terras, cobiçadas em razão da abundância de recursos, especialmente madeira de araucárias e erva-mate.

Palco do Parque Temático está abandonado.

"O mais difícil foi feito, que é a imaginação, a fórmula, o embasamento histórico e filosófico. Apenas um dos módulos teve início. É uma ilha artificial com anfiteatro e a cobertura é uma coroa que representa a sonhada sociedade utópica e igualitária", comenta o historiador. Ele destaca que a intenção era tornar Irani definitivamente como principal ímã de atração turística da história do Contestado. "Tem havido muita visitação aqui, mas é uma decepção também. Seria um projeto nos moldes de São Miguel das Missões incluindo som, luz e imagem com apresentações uma vez por mês" revela.

O historiador faz duras críticas ao poder público, que não valoriza a importância cívica e histórica dos conflitos. "Infelizmente nada se fez sobre a temática do Parque e os poderes públicos seriam responsáveis pelo apoio logístico e de material. A cultura não morreu, ela se mantém com a chama acesa, nós recebemos grupos de escolas aqui, mas, infelizmente, estamos marcados pelas deficiências e ausências das soluções que competem ao poder público".

Detalhe do teto do palco: inacabado e deteriorado.

Vicente Telles adianta que, ainda neste ano, a intenção dele, enquanto entusiasta da cultura relacionada à Guerra do Contestado, é retomar atividades que eram feitas em outras épocas. "A batalha do Irani vai completar 100 anos em 2012 e eu já estou preparando ações ainda neste ano para marcar esta data e retomar a consciência cívica das pessoas. Minha intenção é voltar a realizar os desfiles cívicos que reuniam cerca de 2,5 mil pessoas", revela.

De acordo com Telles, apesar da pouca infra-estrutura na área aberta à visitação, que compreende o Museu do Contestado, o cemitério e o monumento, no ano passado cerca de mil pessoas passaram pelos locais que representam a história da guerra. "Vieram, inclusive, pessoas da Argentina. Também esteve por aqui um professor do Canadá, que estuda a vida do Monge José Maria e recebemos muitos pesquisadores que elaboram teses e recorrem a este local para conhecer mais", afirma.

O historiador pretende mobilizar a sociedade para retomar as obras de infra-estrutura nos pontos turísticos relativos à guerra. "Nós vamos agora estudar as prioridades dentro dos nove módulos para trabalhar com o que for mais urgente, acredito que seja a sede da recepção que é junto ao cemitério e a conclusão do anfiteatro. O Parque é um meio e não é o fim. O fim é a cultura viva, é a chama acesa e isso não apagou apesar de termos encontrado alguns reveses de algumas pessoas que tentaram transformar a cultura em modo, e estes sucumbiram", declara Telles, emocionado.

Outra intenção do historiador é buscar uma parceria com os governos municipais da região ou com o governo estadual para a implantação da disciplina de história do Contestado para as crianças nas escolas. "Nós queremos utilizar os exemplos de bravura dos caboclos para conscientizar o povo de hoje que a única arma que nós dispomos para combater a corrupção é a consciência cívica sobre essa história que está inserida na nossa região", enfatiza.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

José Fabrício das Neves (46)

Detalhe de uma foto de José Fabrício.
Acervo: Reinaldo Antunes (Pinhão-PR).

A “espera” no vassoural

As lembranças do que aconteceu depois do retorno de Fabrício e Ruas das lutas em São Paulo e Paraná ainda estão presentes entre os descendentes do caudilho. Afonso, o filho mais velho de José Fabrício, estava com cerca de 16 anos quando o pai foi apanhado numa “espera”, o mesmo que tocaia ou emboscada. “Meu pai contava que pegaram o Fabrício numa emboscada numa ponte, fecharam os dois lados da ponte, como um alçapão”, destaca Assis Antunes das Neves. Fabrício e seus homens foram presos e amarrados e “depois mandaram o meu pai embora e ele já estava longe quando escutou os tiros”, acrescenta o filho de Afonso.

Gabriel Fabrício das Neves, já referido por sua participação no combate de Irani, emprestou a Marcelino Ruas alguns cavalos para que ele pudesse seguir com seus homens a São Paulo. Sabendo que ele se encontrava de volta, acampado nas imediações do atual trevo das rodovias BR-282 e BR-153, mandou que o filho Emílio acompanhasse o morador Tomás Freitas até o local para reaver a tropa. Agenor, filho de Emílio e neto de Gabriel, conta o que aconteceu. Ao chegar, Emílio e Tomás Freitas também foram detidos e viram José Fabrício e seus homens amarrados.

“No outro dia até o meio dia continuaram amarrados”, lembra Agenor. Seu pai e Freitas continuavam detidos. “E quando foi uma hora um cara pediu para o meu pai que estava com sede e pediu água”, conta. Emílio pediu um copo de água e ouviu como resposta um “não, bandido não toma água”. Passado algum tempo, mandaram que reunisse a tropa de Gabriel e a levasse embora. “E não olhem para trás”, alguém disse. Emílio pediu seu revólver, não deram, mas “ofereceram uma Winchester, meu pai não quis. Era bem novinho, um revólver que o meu avô tinha comprado em Curitiba”. Emílio e Tomás Freitas já haviam se afastado cerca de 100 metros quando “começou o tiroteio”. O primeiro fez menção de voltar, mas o segundo, mais velho, achou melhor ir embora “que matam nós”, destaca Agenor.

Num artigo publicado no jornal O Estado (Florianópolis-SC) em 24 de julho de 1983, Dante Martorano constrói uma cena peculiar da morte de José Fabrício, que teria sido “carregado como fera, atarraxado quase no lombo da mula cargueira”, “tangido foi para fora do acampamento de Ruas”. Tão logo fora preso, Fabrício e seus homens seguiram “escoltados por um destacamento cruzando os caminhos da Fazenda do Campo Comprido, de Pelegrino Silvestre”, passando a poucos quilômetros de onde as forças do caudilho (“como bicho amarrado”) estavam acampadas, recém retornadas de São Paulo e Paraná. Era “arrastado por seus próprios caminhos”, observa Martorano, onde “força alguma antes ousara enfrentá-lo”. Paisagem onde “a lâmina das armas” do caudilho “atestava o destemor, a violência e a arrogância de quem deixa atrás de si e de seus rastros, a legenda da bravura”.

Waldomiro Silva, já citado por suas informações precisas, informa que no retorno de São Paulo e Paraná, as forças de Marcelino e Fabrício acamparam nos campos de Irani, distantes cerca de seis quilômetros uma da outra. “Constou”, assinala, que Marcelino Ruas “mandou convidar” o caudilho e “seu Estado-Maior para uma visita ao acampamento, o que foi aceito, uma vez que ambos eram amigos e defendiam a mesma causa”. Fabrício e seus “cinco ou seis companheiros” foram presos ao chegar no acampamento e “conduzidos de volta uns seis quilômetros e fuzilados à margem do rio São João, no lugar denominado Caçadorzinho” (SILVA, 1987, p. 62-63).

Ferreira (1992, p. 63-64) observa que o batalhão de Fabrício estava acampado na Costa do Rio do Mato, “onde atualmente está instalada a Celulose Irani”, e que Marcelino, “argumentando que embora rivais, tornaram-se amigos ao defender a mesma causa”, teria mandado um mensageiro “convidar Fabrício para um churrasco na Fazenda Velha, onde poderiam conversar sobre o resultado da revolução”. Além disso, Ruas “passaria ‘boas novas’ sobre os antigos problemas de Fabrício com o Governo”.

O caudilho não sabia que estava indo em direção a uma emboscada, visando “acabar com os ‘restos de jagunços’, como se referia Ruas a Fabrício e seu grupo”. E ao se dirigir ao local combinado, acompanhado de “seus seguidores, foi cercado pelo grupo de Ruas e assassinado” (FERREIRA, 1992, p. 64). Segundo Agenor Antunes das Neves, alguém no caminho teria avisado que se tratava de uma espera, mas Fabrício não acreditou. “Apearam o amordaçado caudilho no lugar denominado Caçadorzinho, a uma légua mais ou menos do acampamento de Marcelino Ruas”. Retirados das mulas, ele e seus homens foram “amontoados” e “quem de longe ouviu tantos tiros imaginou o festivo fogo de saudações”. Porém, “das carnes de Fabrício e de seus homens que receberam o chumbo, esvaiu-lhes o sangue”, descreve Dante Martorano artigo citado.

Um dos homens de Marcelino era Luiz Adão Jacques. Sua filha, Ana Sílvia Jacques, contou a Antenor Ferreira que cerca de 50 homens aguardaram a chegada de Fabrício, escondidos num “vassoural na beira do caminho”. O caudilho estaria com cerca de 15 homens e foi tomado de surpresa, sem “possibilitar reação”, sendo desarmando. Ruas teria dito que Fabrício “pagaria pelo jaguncismo que praticou na região ao lado de José Maria”. O caudilho afirmou não ter “medo de morrer, que não precisava de cerimônias e que podia atirar”. Um dos homens de Ruas passou o laço de um arreio no pescoço dos homens, “conduzidos às margens do rio Irani, distante mais ou menos 300 metros, onde após libertarem alguns dos acompanhantes de Fabrício, fuzilaram-no no barranco do rio, juntamente com sete companheiros” (FERREIRA, 1992, p. 65).


Frei Tambosi anotou em suas Crônicas da Capela de Engenho Velho que Fabrício estava acompanhado de “seis valentes” quando foi “preso e fuzilado. Diz-se que ao ser baleado deu uma gargalhada, pois queria morrer como valente. E em seguida foi decapitado, não se encontrando mais a cabeça” (TAMBOSI, 1941). José Gomes lembra do aviso dado por Guilherme Rossato para que Fabrício não deixasse “o couro por lá”, como já foi citado. Na ocasião, o caudilho teria dito: “Não tem perigo, os sujeitos são meus amigos. E foi onde ele caiu. Caiu friamente. Acabou o Fabrício”, assinala.

Ferreira (1992, p. 65) ouviu de Sílvia Jacques que Fabrício fora degolado e sua cabeça “levada para Herval do Oeste”, de onde, “pelo trem, foi mandada para Curitiba à viúva do coronel João Gualberto”. Ela teria prometido 40 contos “pela cabeça do assassino do marido”. Outro autor afirma: “Conta-se que a viúva do coronel João Gualberto prometera 40 contos a quem lhe entregasse a cabeça do traidor de seu falecido marido”. O responsável por sua morte, “José Ruas”, segundo frei Tambosi, que era “parente mas inimizado com Fabrício, quis provavelmente receber o prêmio, fugindo em seguida para a Argentina” (TAMBOSI, 1941).

José Gomes, residente em Colombo-PR.

“A mulher do falecido João Gualberto pagou os Ruas para prenderem ele, foi o que eles inventaram lá em Joaçaba, um churrasco”, conta José Gomes. “Levaram a cabeça pra viúva pra provar que estava morto, e daí a viúva mandou levar de volta, botar junto com o corpo dele, onde foi enterrado”, acrescenta, não havendo confirmação de que a devolução tenha sido feita. Segundo Antônio Fabrício das Neves, “o certo da morte dele [José Fabrício] mesmo, diziam eles que era uma vingança, uma empreitada”, contratada pela citada viúva. “Agora se é verdade ou não é eu não sei, segundo o que contavam era isso”.

Dante Martorano, no mesmo artigo, assegura que a notícia da morte do caudilho “andou pelo Brasil”. Ao Palácio do Governo, em Florianópolis, “chegaram telegramas candentes de recriminações e de revolta”, sobretudo pela maneira como tudo ocorreu. Observa que “até do marechal Rondon, veio via telégrafo, a repulsa à traição e ao assassinato de José Fabrício das Neves”. Rondon, segundo Martorano, teria se referido assim a Fabrício: “Valente em armas como o Exército Nacional, na sustentação da legalidade personificada no governo do Presidente da República – Arthur Bernardes”.


Referências

FERREIRA, Antenor Geraldo Zanetti. Concórdia: o rastro de sua história. Concórdia: Fundação Municipal de Cultura, 1992.

SILVA, José Waldomiro. O Oeste Catarinens: memórias de um pioneiro. Florianópolis: Edição do Autor, 1987.

TAMBOSI, Valentin. Livro de Crônicas para a Capela de Nossa Senhora Aparecida de Engenho Velho. Paróquia N. S. do Rosário, Concórdia, Diocese de Lages. [1941]. 50f. [manuscrito]. (Fotocópia das primeiras páginas cedida por José Puntel. Concórdia, abril
2007).



O TÚMULO DE JOSÉ FABRÍCIO DAS NEVES

Repórter-fotográfico Marco Cezar registra o
túmulo de José Fabrício das Neves e seus homens,
localizado na margem direita do rio Irani
(município de Vargem Bonita-SC)
.

Detalhes do túmulo de José Fabrício: um
retangulo de taipa com cerca de 3x11 metros.

Trecho do rio Irani, próximo ao túmulo.

O repórter-cinematográfico Marco Nascimento
se dirigeao local do túmulo e grava imagens
dos butieiros que assinalam a localização.