segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

José Fabrício das Neves (45)

Foto já conhecida do grupo de José Fabrício encontrada numa
parede na casa da família Machado - interior de Vargem Bonita-SC.


Cenários e personagens de uma emboscada

Vamos conhecer algumas pessoas e situações relacionadas diretamente com a emboscada e morte de José Fabrício das Neves, ocorrida em janeiro de 1925 - aparentemente no dia 29. Os capítulos "Os Ruas" e "A compra da Fazenda Velha" foram publicados (com pequenas alterações) no livro "O mato do tigre e o campo do gato - José Fabrício das Neves e o combate do Irani" (Florianópolis: Insular, 2007).

Além disso, são reproduzidas as cinco páginas do contrato de compra e venda de uma fazenda entre os Ruas e José Fabrício, negócio apontado como um dos motivos da emboscada. O valor da transação nos dá uma idéia da riqueza acumulada por José Fabrício, um antigo maragato de 1893 e "jacunço" do Contestado, alçado a condição de "coronel". Ele controlava toda a região dos atuais municípios de Concórdia, Arabutã e Itá, entre outros, com iarticulação e nfluência em Campos Novos, todos em Santa Catarina, e cidades do Rio Grande do Sul e do Paraná.


Os Ruas

Simão Ruas e Marcelino Ruas são citados como “pioneiros” de Joaçaba por Alexandre Muniz de Queiroz (QUEIROZ, 1967, p. 212), sendo comerciantes. Simão, “comerciante e comprador de erva-mate”, morava na margem direita do rio do Peixe, no lado oposto a então Estação Capinzal, desde os tempos em que a região pertencia ao Paraná. “O acesso era por uma balsa, tocada por Afonsinho Silva”, recorda Waldomiro Silva. Seu irmão, Francisco, conhecido por Chico Ruas, morava nas imediações (SILVA, 1987, p. 20).

Marcelino se casou com Elvira Pedrini, filha do coronel Pedrini Primo Biggin, de origem italiana, comerciante e um dos mais antigos moradores de Joaçaba. Outro filho de Biggin, Roberto Pedrini, se casou com Benvinda Ruas (QUEIROZ, 1967, p. 45). Chico Ruas seria mais tarde sogro desse mesmo Roberto. Pouco depois chegou de Passo Fundo-RS, Thomaz Camilo Ruas, “que tomou conta da casa comercial e compra de erva-mate”, enquanto Simão “viajava constantemente para o Rio Grande do Sul e Argentina” a negócios (SILVA, 1987, p. 21).

José Waldomiro Silva acompanhou de perto essa movimentação comercial, pois na época trabalhava como “caixeiro ou balconista do sr. Simão Ruas, onde também era empregado o caboclo Antônio de Oliveira, vulgo Antônio Lambança”. Simão “foi homem de muita sorte, pois chegou a acertar por duas vezes na loteria e ganhar o prêmio maior, que na época era de 50 contos de réis”, vindo se tornar um “grande empresário de erva-mate e proprietário de grandes fazendas (ervais)”, inclusive no Paraná, na localidade de Covó e município de Mangueirinha, na região de Clevelândia.

Comércio de Simão Ruas. (Fonte: Queiroz, 1967)

Mais tarde, por volta de 1921, Simão e seus irmãos adquiriram as casas, armazéns e outras instalações de Eugênio Lamaison, em Limeira (Joaçaba), que atuava no ramo de compra e venda da erva-mate. Simão construiu no local “a primeira casa de material” em Erval”, próximo a ponte Jorge Lacerda, com dois pavimentos, “onde residiu com sua família e manteve escritório no andar térreo”. Simão, entretanto, ao mesmo tempo que ganhava muito dinheiro, “gostava muito de corridas de cavalo e também de jogo de pôquer, talvez uma das razões de ter morrido em dificuldades financeiras (pobre)” (SILVA, 1987, p. 21).

Na época em que inaugurou o estabelecimento, um cidadão de Porto União também se instalou na cidade e no mesmo ramo de erva-mate, abrindo seu negócio na casa e ferraria de João Perez, na região central do atual município de Joaçaba. “Para evitar concorrência”, conta José Waldomiro, “a firma Ruas começou a pressionar o concorrente”, que não se intimidou e prosseguiu com a empresa. Certo dia, os “rapazes dos Ruas”, segundo o citado autor, “armados de winchesteres e revólveres”, atacaram o escritório do concorrente e, “em número de cinco ou seis, entre os quais o de nome Nefre que tinha fama de bem bom”.

O comerciante de Porto União já esperava o ataque e assim que o grupo agressor chegou, “vindo da Empresa Ruas”, foi recebido à bala, “travando-se a seguir violento tiroteio, tendo os agressores se retirado com dois feridos”. Ninguém morreu, mas cinco ou seis pessoas de ambos os lados saíram feridas e “a vista disso, o moço de Porto União resolveu desistir de comprar erva-mate em Limeira” (SILVA, 1987, p. 39-40).

Fonte: Queiroz, 1967. (Clique para ampliar)


A compra da Fazenda Velha

A memória oral em Irani registra a presença de uma fazenda como motivo das divergências entre Marcelino Ruas e José Fabrício. “Os irmãos Ruas lá de Limeira se davam bem com ele [Fabrício], depois eu sei lá o que, eles se desentenderam, então ficaram de contra, por causa de terra”, diz Antônio Fabrício das Neves, que cita a presença de uma “sociedade” e uma “fazenda”, “banco”, “dinheiro dos bois”. Os Ruas, segundo Antônio, “só vinham aqui pra querer matá ele, como de fato mataram. Não sei qual era o motivo, mas era por causa do terreno”.

Agenor Antunes das Neves acrescenta outras informações. Fabrício teria adquirido de Marcelino Ruas uma fazenda, “mas ele [Marcelino] não contou que era hipotecada” e “quando estava quase terminando de fazer o pagamento, faltava pouco, ele não podia, ele já tinha gastado o dinheiro, e diz que tinha de desempenhorar a fazenda”, ou seja, retirá-la da penhora em que se encontraria junto a algum banco. Agenor diz que para efetuar o pagamento da fazenda, Fabrício “derrubava não sei quantas mil toras por mês”, despachadas pelo rio Uruguai até São Tomé, na Argentina. Fabrício “pegava o recurso e ia pagar pro Ruas”, garante.

As falas de Antônio e Agenor fazem mais sentido quando examinamos um “Contrato de promessa de compra e venda”, assinado entre os proprietários da Simão Ruas & Cia, “industriais estabelecidos na Estação de Erval”, e “o comprador o cidadão Jozé Fabrício das Neves, casado, fazendeiro e residente em sua fazenda denominada Laranjeira”. O documento foi lavrado e assinado no dia 15 de junho de 1924, no Cartório de Paz do Distrito de Sertãzinho, município de Cruzeiro (Joaçaba), sob a guarda do Cartório de Paz de Irani. Como representante da firma Simão Ruas & Cia aparece Marcelino Camilo Ruas, “residente em Erval”.

O contrato possui 12 cláusulas. A primeira especifica o objeto de compra – a Fazenda Velha, “parte da Fazenda Irani”, com 21 milhões de metros quadrados – e define os limites do imóvel. A segunda estabelece o preço em seis contos de réis o milhão de metros quadrados e a terceira, quarta e quinta detalham a forma de pagamento. A primeira prestação, a ser paga em 30 dias, seria em terras e José Fabrício deveria entregar aos Ruas a escritura de compra e venda obtida da Companhia São Paulo-Rio Grande, num total de 12 colônias. Elas deveriam ser “escolhidas pelos outorgantes”, ou seja os irmãos Ruas.

A segunda prestação deveria ser paga até o dia 30 de agosto seguinte (1924), correspondente a “200 vigas de cedro classificados de primeira qualidade para exportação e com uma média de setenta centímetros de diâmetro da ponta fina”, e 23 palmos de comprimento, organizadas em duas balsas, atadas e em “condições de viajar para São Thomé”. Elas deveriam ser entregues “no porto da sede da colônia Itá”. Essa segunda prestação previa a entrega de “porco gordo”, no valor equivalente a cinco contos de réis. A mercadoria devia ser deixada na Estação de Erval até o dia 15 de agosto daquele mesmo ano. Os porcos seriam “pesados vivos” e cada quilo equivaleria a 1.200 réis.

A terceira prestação da compra da Fazenda Velha, a ser paga até 15 de setembro daquele ano de 1924, seria em 300 vigas de cedro (40 mil réis por unidade), com as mesmas dimensões das citadas anteriormente, e teriam que ser deixadas nas barrancas do rio Uruguai. O restante do pagamento, segundo o contrato, “será dividido em dez prestações iguais em madeira de cedro e louro”, em vigas, a ser feito a cada trimestre.

A sexta cláusula do referido contrato previa que os Ruas “obrigam-se” a emitir “recibo bem claro de todas as prestações que este [Fabrício] for efetuando em madeiras, porcos ou dinheiro”. Ao final dos pagamentos, os Ruas estariam obrigados a entregar a “competente e pública escritura de venda”. A cláusula seguinte (sétima), estabelece que na entrega da escritura, José Fabrício devolveria aos Ruas “os valores correspondentes ao imposto territorial que estes houverem pago, de esta data a data em que for escriturada”.

José Fabrício poderia usufruir o imóvel desde o momento da assinatura do contrato (15 de junho de 1924) e em caso do não pagamento de uma das prestações, teria 90 dias para fazê-lo. Se deixasse de quitar a dívida, o contrato ficaria anulado (cláusulas oitava e nona). Se os Ruas não cumprissem o previsto no contrato, deveriam indenizar Fabrício com o dobro das prestações pagas até o momento em que surgisse o problema (cláusula décima). O contrato teria vigor por dois anos e meio e caso o pagamento integral fosse efetuado dentro de um ano, haveria um desconto de 10%, segundo a cláusula décima primeira.

Por fim, prevê a 12ª cláusula, os 21 milhões de metros quadrados da Fazenda Velha custariam um total de 126 contos de réis. A assinatura do contrato entre José Fabrício e Marcelino Ruas (Simão Ruas & Cia), foi testemunhada por Sílvio Neves Bley, e Dinarte José Antunes, que também assina o documento. Não foi possível prosseguir as pesquisas e acompanhar os detalhes do cumprimento desse contrato, estando disponível num primeiro momento apenas parte da memória oral e escrita e outras informações daqueles tempos.

Neto de José Fabrício das Neves, residente em Pinhão-PR, Assis Antunes das Neves também garante que seu avô pagou rigorosamente as prestações. Essa informação ele ouviu mais de uma vez de seu pai, Afonso Antunes das Neves. “O José Fabrício comprou os campos do Irani, pagou o combinado, mas o Marcelino Ruas não tinha como dar a escritura por causa da penhora no banco”, explica Assis. “A única saída dele era matar o Fabrício e os capangas dele”, pois caso contrário seria morto. Afinal, seu avô “lidava com erva-mate, madeira, porco, tinha armazém, trabalhava com muita gente, dava serviço para muita gente. E ele tinha o povo das batalhas e o povo que trabalhava", garante.

Agenor Antunes das Neves é primo de Assis, os dois nunca se conheceram, mas a versão deles é semelhante, ou seja, Marcelino Ruas ficou sem saída. “Ele sabia que o Fabrício tinha muita gente lá, tinha gente da pesada”, então “fizeram essa emboscada”. Em outro momento da entrevista enfatiza: “Ele [Fabrício] tinha muitos capangas, se trouxesse virava em nada os Ruas”, observa Assis.


Referências

QUEIROZ, Alexandre Muniz de. Álbum comemorativo do centenário do município de Joaçaba. Joaçaba: IP-Paraná, 1967.

SILVA, José Waldomiro. O Oeste Catarinens: memórias de um pioneiro. Florianópolis: Edição do Autor, 1987.



Contrato de compra e venda da Fazenda Velha
(Irani-SC),
assinado no dia 15 de junho de 1924,
no Cartório de
Paz do Distrito de Sertãzinho,
município então de Cruzeiro (Joaçaba-SC)

(Clique na imagem para ampliar)


O documento original se encontra no Cartório do Irani
(Irani-SC). Livro de Notas aberto em 7 de maio de 1918.
As cinco folhas foram copiadas e autenticadas.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A Lumber e o Contestado, segundo Valentini


A instalação da Southern Brazil Lumber and Colonization
e o desencamendo da guerra na região do Contestado.



Por Delmir José Valentini

A história da madeireira e colonizadora Lumber, edificada pelo norte-americano Percival Farquhar, na Região do Contestado, no início do Século XX, está intrinsecamente ligada à história da Guerra do Contestado. Farquhar, com ampla visão dos aspectos econômicos dos países em que atuou e com ampla bagagem de experiências em investimentos desta natureza, iniciou, no ano de 1909, a instalação da grande madeireira e colonizadora em Três Barras.

O brasilianista, Todd Diacon, observou que Farquhar, com “olhos de águia”, percebeu as reservas de pinheiros do Paraná e Santa Catarina como grande fonte de riqueza natural para serem industrializadas e comercializadas (DIACON, 2002, p. 51). O processo começou com a construção da ferrovia e continuou com a exploração da madeira. Assim, justificaria grandes investimentos que culminariam com a colonização da região e garantiriam elevados lucros aos investidores.

A atividade cafeeira, no Centro Oeste, absorveu centenas de milhares de imigrantes. Segundo Farquhar, era visível o anseio destes imigrantes de se tornarem proprietários de terras, e que também seria de interesse público a ocupação efetiva na Região do Contestado. A concessão, por parte do governo brasileiro, de vasta faixa de terra ao longo das margens dos trilhos, facilitaria os interesses mútuos.

Ligada ao processo de industrialização e urbanização brasileira, a demanda por madeira exerceu forte pressão sobre a Floresta Ombrófila Mista (KLEIN, 1984) e grande parte desta fabulosa riqueza natural foi destinada aos incipientes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro. No plano externo, o mercado da madeira se expandiu com as exportações, principalmente pelos portos de São Francisco e Paranaguá, de onde o pinho retirado desta Região ganhava os mercados mundiais.

Entre 1900 e 1910, observa-se uma atividade crescente, passando de 189:094$210 para 626:402$911. Segundo Rufino P. Almeida, neste período, aproximadamente 3% da receita catarinense advinha da madeira. Com a instalação da Lumber (1909), foi grande o aumento da produção e exportação, elevando os índices, com algumas variáveis em determinados momentos (Durante a Primeira Guerra Mundial e no contexto da quebra da bolsa de valores de Nova Yorque em 1929), sendo possível perceber a expansão e importância econômica nos anos que antecedem a sua nacionalização, chegando, a partir de 1932, a um crescimento vertiginoso. Os índices do período (1910 a 1930) elevam-se a mais de 8%. (ALMEIDA, 1979)

O aproveitamento comercial da madeira retirada da Floresta Ombrófila Mista (KLEIN, 1984) está ligado às pressões dos desmatamentos para abrir áreas agrícolas e formação de pastagens. Tornou-se comum as empresas colonizadoras venderem as terras e garantirem a reserva da madeira sobre a área, uma vez que o colono tinha interesse na terra sem mata para proceder nos lavrados o cultivo de lavouras e a criação de animais.

Da primitiva área de mais de 200.000 quilômetros quadrados no Sul do Brasil, coberta de araucárias, do início do Século XX, em aproximadamente um século, encontramos nos mesmos locais apenas 3% da cobertura original, mostrando que o desaparecimento da vasta floresta procedeu a um processo rápido de transformações que merecem atentos estudos.

Até o ano de 1912, Farquhar recebeu grandes empréstimos de bancos europeus e promoveu grandes investimentos. A partir de 1912, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, cessaram os empréstimos e os altos custos dos investimentos levaram Farquhar a falência. Em 1914, W. Cameron Forbes foi nomeado pela Corte do Maine como interventor da Companhia Brazil Railway Company, que operou no Brazil até o ano de 1940, quando foi nacionalizada, através do Decreto Lei 2436 do Governo de Getúlio Vargas. (DIACON, 2002, p. 50)

Em toda a história da Lumber, podemos destacar a presença de grande número de trabalhadores, principalmente imigrantes ou descendentes destes e as profundas mudanças causadas pela presença do capital internacional na Região. Em 1912, trabalhavam 400 homens na madeireira de Três Barras, aumentando para 655 em 1915. Existem registros que confirmam que a serraria de Três Barras ficou parada entre agosto de 1914 e junho de 1915. A crise foi contornada com grandes vendas para a Argentina, no ano de 1916, segundo Diacon, de US$ 166.500 (DIACON, 2002, p. 51).

Analisando os livros onde constam os pagamentos durante os anos de 1923 até fevereiro de 1929, encontramos um número pouco variável de trabalhadores, tanto na parte interna da madeireira, onde geralmente o número de operários ficava numa média de 230 e externamente, nas matas, onde o número aproximava-se de 310 homens.

Internamente, entre as diversas atividades, predominavam os trabalhadores da cepilhadeira com dois turnos (dia e noite) com aproximadamente 50 homens em cada turno. Além da empilhação e oficina, que também reuniam grande número de trabalhadores, existiam as tarefas que demandavam menos operários e, ainda, as atividades de escritório, armazém, farmácia, hospital entre outras, delegadas aos chefes, encarregados e dirigentes.

Externamente, chama a atenção o número de operários cortadores de toros, entre 30 e 50, em constante deslocamento nas matas, e um número menor de operários em atividades de operação de guinchos, donkeys, corte de lenha, locomoção, carregadores, apontadores e conservas.

Tanto internamente, quanto externamente, a presença de operários estrangeiros, imigrantes ou descendentes, é maciça, e pode-se observar a presença polonesa em praticamente todas as atividades. No donkey número 2, em outubro de 1923, trabalhavam 12 operários. Eis os sobrenomes: Kozak, Scorey, Kozakevicz, Repula, Jankok, Scheuky, Holowka, Sczerbisky, Wiescosky, Maralevicz, Wolk e Nicolau Budi.

Valdemiro Noga, antigo trabalhador da Lumber, veio da Grande Ucrânia e trabalhou até depois da empresa ser incorporada ao patrimônio nacional. Contou sua experiência enquanto operador de guinchos, atuando na retirada das araucárias da Floresta Ombrófila Mista.

Praticamente, não existem estudos sobre a atuação da Southern Brazil Lumber and Colonization Company no Brasil no início do Século XX. Estimativas dão conta de que a Lumber cortou e beneficiou milhões de metros cúbicos de madeira durante os anos de 1909 e 1939. Teve como engenho central a grande serraria de Três Barras e filiais em Calmon e Valões, em Santa Catarina. Atuou com fazendas no Paraná. Com escritórios em São Paulo, São Francisco - SC e em Paranaguá - PR. Na época, transformou-se em grande complexo produtor e exportador de madeireiro.

O sistema de mecanização e a divisão dos trabalhos desde a retirada das árvores da floresta até o processo final de embarque revelam o meio mais eficaz de obter lucros com os investimentos em alta tecnologia, mecanização e qualificada mão-de-obra de imigrantes. Sistema de empilhamento para secagem, aproveitamento de madeira para fábrica de caixas e até na venda de sobras, como lenha, para os funcionários, revelam a complexidade e atenção aos possíveis lucros, procurados até nos mínimos detalhes.

Mesmo depois de nacionalizada, continuou operando através da Southern Brazil Lumber and Colonization Company Incorporada. Registros de contratos entre fazendeiros e a Lumber Incorporada mostram que no ano de 1942 foram adquiridos centenas de milhares de árvores de araucárias, próximas à Serra do Espigão, vendidas por fazendeiros que firmavam contratos de retirada das árvores das suas propriedades. Um levantamento dos contratos feitos com fazendeiros, registrados no Cartório de Paz de Curitibanos , onde se encontram várias dezenas destes documentos, apontam negócios envolvendo milhões de árvores em áreas de terras onde, após a exploração comrecial da madeira, as terras eram comercializadas ou regularizadas as posses.

No Cartório de Paz de Curitibanos, estão os contratos registrados, através de escritura pública de arrendamento, assinados pelo procurador da Lumber, Sr. João Pacheco Sobrinho, da Vila de Três Barras, que percorria a região comprando o direito de extração de pinho, imbuia e outras madeiras para exploração industrial e comercial. Diversas condições eram estabelecidas nos contratos, entre outras, as árvores cortadas deveriam medir 1(um) metro acima do solo ao serem derrubadas (quinze polegadas inglesas). O valor estabelecido era de 3$000 (Três mil réis) cada uma e seriam marcadas na presença de ambas as partes. O prazo de retirada ficava estabelecido em 10 anos, podendo ser prorrogados por mais dez.

Ao assinar os documentos do arrendamento, o procurador também reservava o direito da Lumber de também construir linhas, caminhos, estradas de rodagem, de vias férreas sem condições de indenizar se isso causasse qualquer dano ao terreno. Podia também tirar lenha, nó de pinho e dormentes do terreno arrendado e, ainda, o direito de sublocar a quem lhe conviesse, pois o direito do contrato continuava valendo mesmo em caso de transmissão do terreno por qualquer título.

Torna-se impossível, pelos registros existentes precisar todos os contratos de arrendamentos para retirada posterior da madeira ou mesmo de contratos de compra das terras. No entanto, alguns chamam a atenção pela quantidade de terra e pela localização. Assim, encontram-se nos arquivos do Cartório de Curitibanos, registrados no ano de 1948, entre o procurador da Lumber e os proprietários, contratos de arrendamento dos seguintes locais: distrito de Caragoatá, da Comarca de Curitibanos, e Alto da Serra do Espigão, somando, juntos, milhões de hectares de terra.

A preocupação com a retirada das araucárias de forma indiscriminada começou somente após a nacionalização da Lumber. Uma portaria assinada em 01 de fevereiro de 1940 instituiu um serviço administrativo geral para a comercialização do pinho brasileiro, estabelecendo regras e limitando a quantidade de pinheiro para ser retirada e comercializada. No ano seguinte, o Decreto-Lei 3124, de 19 de março de 1941 criou o Instituto Nacional do Pinho. Sem dúvidas, a atitude mais enérgica veio em 1946, através do Decreto-Lei, Número 9647, de 22 de agosto do mesmo ano, quando o governo brasileiro adotou normas proibitivas para a exportação de madeira bruta ou industrializada no País.

Ainda dentro das iniciativas oficiais, encontramos, em período recente da história da Floresta Ombrófila Mista, um amplo programa de incentivos fiscais ao reflorestamento com espécies exóticas do gênero “Pinus”, assinado pelo Marechal Castelo Branco em !966 e, no ano seguinte, a criação do IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal) que substituiu o INP (Instituto Nacional do Pinho).


Um desastre ecológico, o fim de um ecossistema que tinha como fundamento a gigante árvore de pinhas, com sementes nutritivas, para a fauna, índios e caboclos? O progresso que chegou com os trilhos da ferrovia São Paulo - Rio Grande? A colonização que depositou nesta terra sementes diferentes e braços europeus para o seu cultivo? Substituição da floresta preta de pinheiros pelo deserto verde do pinus illiotis, efêmera floresta lucrativa?

A edificação da Southern Brazil Lumber and Colonization Company, iniciada em 1909, a construção da ferrovia São Paulo Rio Grande, entre os Rios Iguaçu e Uruguai, inaugurada em 1910, e o conflito armado que ocorreu entre os anos de 1912 e 1916 na Região do Contestado, constituem eventos cruciais no entendimento da formação social, econômica, política, religiosa, cultural e ambiental nas terras contestadas. O estudo comparado em cada contexto possibilita a compreensão das profundas mudanças, principalmente econômicas e ambientais, e os fatores do desencadeamento do maior conflito social brasileiro ocorrido durante as primeiras décadas do Século XX.

A instalação da Southern Brazil Lumber and Colonization Company nas proximidades da linha tronco da ferrovia São Paulo - Rio Grande, está relacionada ao projeto grupo econômico liderado por Percival Farquhar que começou a instalar a Lumber na Região do Contestado ainda no ano de 1909, mesmo antes da inauguração da ferrovia que cortou as terras contestadas. Estava nascendo o maior complexo madeireiro do mundo e as transformações ambientais que alteraram profundamente o panorama regional.

A construção da ferrovia São Paulo Rio Grande, cujo planejamento remonta o segundo império brasileiro, só foi concluída no ano de 1910 e desencadeou um amplo processo de ocupação e povoamento, valorização das terras circunvizinhas, institucionalização da propriedade privada, espoliação de antigos moradores, entre outras significativas transformações.

Maurício Vinhas de Queiroz destacou que, “em 1911 ocorreram os primeiros despejos” dos antigos moradores da Região do Contestado, expulsos das proximidades da ferrovia, cujas terras agora pertenciam para a empresa Brazil Railway Company. (VINHAS DE QUEIROZ, 1977)

O primeiro ajuntamento de sertanejos na Região do Contestado ocorreu em seguida, no ano de 1912. Algúns fatos ocorridos, no ano que antecedeu, chamam a atenção. Os sertanejos juntaram-se em torno de José Maria, um benzedor e curandeiro que receitava ervas, benzia e aconselhava, poderes antes exercidos pelos monges João Maria de Agostini e João Maria de Jesus. Com José Maria, principiou a aglutinação que gerou a Guerra do Contestado iniciada em 1912, estendida até 1916 e que deixou um saldo de aproximadamente oito mil brasileiros mortos, a grande maioria sertanejos pobres que viviam na Floresta Ombrófila Mista.

O desencadeamento da Guerra do Contestado está relacionada diretamente aos fatos que ocorreram na véspera do conflito. Não há como negar que a construção da ferrovia, a exploração comercial da madeira e o processo de colonização foram elementos condicionantes no desencadeamento do conflito armado que foi denominado Guerra do Contestado.

A chegada de colonos, descendentes de europeus, para trabalharem na Lumber e desbravar a floresta Ombrófila Mista, abriu espaço para os colonos que desembarcaram ao longo das estações da ferrovia São Paulo Rio Grande e se internaram nas terras novas para o cultivo de cereais e criação de animais e despertaram a ira dos caboclos que partiram para a desforra. Entre os fatos que podem exemplificar, está o ataque do grupo liderado por Francisco Alonso à Colônia do Rio das Antas, em novembro de 1914, resultando em mortes em ambas as partes, entre outras, a do próprio líder sertanejo.

No dia 06 de setembro de 1914, o alvo dos sertanejos rebeldes foi a própria Lumber, quando a Estação de Calmon foi queimada e a filial da madeireira norte-americana foi alvo de saque e incêndio. Herculano Assumpção registrou que, na porta de uma venda, escrito a lápis, ficou uma carta onde os sertanejos reclamam do governo que “toca os filhos brasileiros dos terreno que pertence à nação e vende para o estrangeiro (....) Nois não tem direito de terras tudo é para as gentes da Oropa” (ASSUMPÇÃO, 1917, p. 245).

O desbaratamento total das cidades santas, o final da Guerra do Contestado, o processo de limpeza para impedir novos ajuntamentos e a assinatura do acordo entre Santa Catarina e Paraná, determinando os limites para jurisdição de cada Estado litigante, colocou colonos e caboclos no mesmo chão, com forte atuação das Companhias Colonizadoras na instalação dos núcleos coloniais e acesso à terra por meio de pagamentos e legalizações de propriedades em cartórios públicos.

Não precisa nem escrever que os caboclos continuaram com dificuldades para ter acesso àquilo que tinham antes da chegada da ferrovia. Segundo Paulo Pinheiro, ao findar a Guerra do Contestado, o General Setembrino de Carvalho trocou telegramas com os governadores de Santa Catarina e do Paraná, sugerindo o estabelecimento dos sertanejos prisioneiros em colônias na própria Região. O General recebeu da Inspetoria Federal de Povoamento do Solo (Ministério da Agricultura) a informação de que “não existem terras disponíveis, sendo as colônias existentes organizadas para a recepção de imigrantes europeus”(MACHADO, 2006, 324).


Bibliografia

ALMEIDA, Rufino Porfírio. Um aspecto da economia de Santa Catarina: A Indústria Ervateira. Dissertação de mestrado em História. UFSC, 1979.

ASSUMPÇÃO, Herculano Teixeira. A Campanha do Contestado. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1917, V. I.

ASSUMPÇÃO, Herculano Teixeira. A Campanha do Contestado. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1918, V. II.

DEAN, Warren. A ferro e fogo – a história e a devastação da mata atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

DIACON, Todd A. Millenarian Vision, Capitalist Reality – Brazil’s Contestado Rebellion, 1912-1916. Fourth printing, Duke University Press, 2002.

GAULD, Charles A. Farquhar o Último Titã – Um Empreendedor Americano na América Latina. Tradução Eliana Nogueira do Vale. São Paulo: Editora de Cultura, 2006.

GUERRA, Miguel Pedro e outros. Exploração, Manejo, e Conservação da Araucária (Araucária Angustifólia). In Sustentável Mata Atlântica – A exploração dos seus recursos florestais. 2 ed., São Paulo: SENAC, 2003.

HEINSFELD, Adelar. A Questão de Palmas entre Brasil e Argentina e o Início da Colonização no Baixo Vale do Rio do Peixe-SC. Joaçaba: UNOESC, 1996.
KLEIN, R. M. Aspectos dinâmicos da vegetação do Sul do Brasil. Sellowia, Itajaí, Nr. 36, P. 5-54, 1984.

KLEIN, R. M. Aspectos dinâmicos da vegetação do Sul do Brasil. Sellowia, Itajaí, Nr. 12, P. 17-44, 1960.

MACHADO, Paulo Pinheiro. Lideranças do Contestado: a Formação e a Atuação das Chefias Caboclas (1912-1916). Campinas – SP: Editora da UNICAMP, 2004.

SILVA, R. Cavallazzi. Terras Públicas e Particulares – o Impacto do Capital Estrangeiro sobre a Institucionalização da Propriedade Privada (um Estudo da Brazil Railway Company no Meio Oeste Catarinense). Dissertação de Mestrado. Florianópolis SC: UFSC, 1983.

VALENTINI, Delmir José. Da Cidade Santa à Corte Celeste: Memórias de Sertanejos e a Guerra do Contestado. 3 ed. Caçador SC: UnC, 2003.

VINHAS DE QUEIROZ, Maurício. Messianismo e Conflito Social (A Guerra Sertaneja do Contestado 1912-1916). São Paulo: Ática, 1977.


Produção

Delmir José Valentini natural de Sul Brasil-SC é mestre em História do Brasil pela PUC-RS e acaba de defender sua tese de Doutorado em História do Brasil na PUC-RS sobre o tema do presente artigo.


Livros

VALENTINI, Delmir José (2004). História política e trajetória do Legislativo Caçadorense. Caçador SC: Universidade do Contestado/Câmara Municipal de Caçador SC, 440p. 1v.: ISBN 85-98641-02-2 (anexo 1 – cópia da capa 1a. Edição)

VALENTINI, Delmir José (2003). Da cidade santa à corte celeste: memórias de sertanejos e a guerra do contestado. 3. ed. Caçador SC, Universidade do Contestado-UnC. 166 p. 1v.: ISBN 85-98641-01-4 (anexo 2 – cópia da capa 2a. Edição) (Apresentado como Dissertação de Mestrado em História do Brasil na PUC-RS no ano de 1997. Em 1998 foi publicada a primeira edição)


Co-autoria

VALENTINI, Delmir José (2001). A utilização da História Oral como fonte de pesquisa sobre a Guerra do Contestado. In FRÓES, Vânia Leite (organizadora). Livro de Resumo do XXI Simpósio Nacional de História “A História no Novo Milênio:entre o individual e o coletivo”. Niterói: ANPUH; Niterói: UFF, 2001. (anexo 3 – cópia da capa e da citação)

VALENTINI, Delmir José (2003). Guerra do Contestado: Construção da Imagem do Caboclo. In RAMPINELLI, Waldir José (organizador). História e Poder: a reprodução das elites em Santa Catarina. Florianópolis, Insular. 224 p. 1 v.: ISBN 85-7474-172-8 (anexo 4 – cópia da capa e sumário)

VALENTINI, Delmir José (2003). História do Contestado: Identidade Cultural e Importância para a Educação. In LOMBARDI, José Claudinei (organizador). Temas de Pesquisa em Educação. Campinas SP: Autores Associados; HISTEDBR; Caçador, SC: UnC, (Coleção educação contemporânea). 262 p. 1 v.: ISBN 85-7496-072-1 (anexo 5 – cópia da capa e sumário)

VALENTINI, Delmir José e outros (2004). Tropeirismo Regional: O singular tropeiro de suínos pelos caminhos históricos de Curitibanos. In SANTOS, Lucila Maria Sbarbi e BARROSO, Vera Lucia Maciel (organizadoras). Bom Jesus na Rota do Tropeirismo no Cone Sul. Porto Alegre: EST. 763 p. 1 v.: ISBN 98-13 981.651 355.692.3 (anexo 6 – cópia da capa e o sumário)

VALENTINI, Delmir José (2005). Guerra do Contestado. In DOLBERT, Aldo (organizador). Maria Rosa – A virgem comandante da Guerra Sertaneja do Taquaruçu. Curitibanos SC: Thipograf, 2005. (anexo 7 – cópia da capa e sumário)

VALENTINI, Delmir José (2006). O tropeirismo de suínos na região do Contestado e sua influência no incipiente processo agroindustrial. In ZOTTI, Solange Aparecida(organizadora). História faz História – Contribuições ao estudo da História Regional. Concórdia SC: Universidade do Contestado: HISED, 2006 (anexo 8 – cópia da capa e sumário)


Artigos

VALENTINI, Delmir José e WITTE, Gerson (2003). Contextualização Histórica e Leitura Visual do Painel “Contestado – Terras Contestadas”, de Hassis. Revista Virtual Contestado e Educação n. 003, janeiro – março de 2003. ISSN n. 1678-0264 (anexo 9 –cópia da capa)

VALENTINI, Delmir José (1999). Tropeiros, Ervateiros e Balseiros: memoráveis personagens da História do sertão catarinense. Caçador SC – Revista ÁGORA. ISSN 0104-7507 (anexo 10 – cópia da capa)

VALENTINI, Delmir José (2000). Brasil 500 anos: a sociedade que estamos construindo. Caçador SC – Revista ÁGORA. ISSN 0104-7507(anexo 11 – cópia da capa)


Nota - A foto de Delmir Valentini é de Marco Cezar, que também reproduziu as imagens do Museu do Contestado (Caçador-SC) usadas na postagem.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

José Fabrício das Neves (44)

Um piquete contra Isidoro


José Fabrício das Neves e seus homens. Detalhe de foto tirada
possivelmente em 1919 no atual município de Catanduvas-SC.
Acervo: Reinaldo Antunes, bisneto de Fabrício (Pinhão-PR).



"Fabrício vou te orientar
que vou morrer neste ato
mais tu não passe do meu sangue
volte de novo pro mato
no sertão tu será um tigre
e no campo vai ser um gato".


A morte do coronel José Fabrício das Neves numa emboscada o tornou lendário entre os caboclos do sertão catarinense e em algumas comunidades no Paraná. Os relatos do ocorrido são repletos de detalhes contraditórios, mas todos convergem para o momento em que Marcelino Ruas e seus homens armam uma ardilosa espera. Os motivos vão desde uma recompensa de 40 contos de réis oferecida pela viúva de João Gualberto, passando por disputas político-partidárias, para chegar na nebulosa compra de uma fazenda e os interesses contrariados das empresas colonizadoras. Ingredientes poderosos para o surgimento das diversas representações por parte de escritores, caboclos e familiares.

O verso de uma décima de Antônio Fabrício das Neves, reproduzido acima, simboliza o primeiro aviso dado ao caudilho. Ele não deveria deixar a protegida região de serras, florestas e cursos d’água da região próxima ao rio Uruguai (“no sertão tu será um tigre”) e se aventurar por áreas em que ficaria desprotegido (“e no campo vai ser um gato”). E mais, dizia José Maria a Fabrício: “Tu não passe do meu sangue”. No final de 1924 o caudilho passou do sangue derramado por José Maria no Banhado Grande de Irani, indo morrer a poucos quilômetros de distância, além do ponto crítico indicado por seu antigo companheiro do projeto de colonização da região. Obviamente que o apelo da mensagem do monge não é geográfico, antes encerra, ao mesmo tempo um conselho e uma profecia: que ele não se metesse com os negócios da República dos Pica-paus. E não deixasse de proteger os caboclos da região.

Podemos tomar como ponto de partida o levante do general da reserva do Exército Isidoro Dias Lopes na capital paulista, no dia 5 de julho de 1924, quando entra em cena outro personagem, Marcelino Camilo Ruas. Residia na Fazenda Velha, próximo ao local onde se cruzam as rodovias federais BR-282 e BR-153, segundo Ferreira (1992, p. 63). A exemplo do que havia feito o coronel Passos Maia com seus 500 provisórios sob a denominação de Batalhão Marechal Bormann, Marcelino e Fabrício criaram seus piquetes de voluntários para defender a legalidade, ou seja, combater o levante de Isidoro, que havia sido tenente da coluna de Gumercindo Saraiva na Revolução de 1893. “Marcelino se aproximou de Fabrício convidando-o para batizar uma filha”, assinala o autor.

De acordo com Ferreira (1992, p. 63), José Fabrício teria formado seu piquete por sugestão de Ruas, “sob o argumento de que, combatendo a favor do Governo, ele, Fabrício, ‘limparia o nome’, já que os fatos ocorridos durante a Batalha do Irani haviam tornando visado o coronel”. O caudilho reuniu rapidamente seus homens espalhados pelo vale do rio Jacutinga, Itá e a atual Concórdia, todos armados e com montarias. José Gomes se recorda da despedida. “Foi em 24 que ele esteve na nossa casa. Foi a segunda e última vez que vi ele. Foi convidar meu pai para ir junto com ele”, assinala. O pai de José, Domingos, “foi um trecho junto com ele e achou melhor voltar”. Na mesma ocasião, relata Gomes, o veterano imigrante Guilherme Rosatto, que mantinha boas relações com os caboclos e o coronel, teria dito: “Fabrício, não vai deixar o couro por lá!”

Apesar dos conselhos, o caudilho seguiu em direção a São Paulo. A meio caminho, os revoltosos de Isidoro Dias Lopes abandonaram a capital paulista, seguindo um contingente para o ato Grosso, e outros grupos se internando pelo interior do Paraná rumo a Foz do Iguaçu. O general-de-divisão Cândido Rondon, responsável pela repressão ao levante, assumiu o comando das Forças em Operações de Guerra nos estados do Paraná e Santa Catarina, ao qual foi incorporado o Batalhão de Infantaria Catarinense, organizado em agosto de 1924. Os três batalhões patrióticos sob o comando de Passos Maia, Marcelino Ruas e José Fabrício das Neves seguiram com essa força, comandada pelo então major Pedro Lopes Vieira, todos subordinados a Rondon (RIBAS, 1985, p. 24-25).

Fabrício acompanhou as forças legais pelo interior de São Paulo e sobretudo no Paraná, onde ocorreram combates, embora não existam muitos detalhes dessa participação. Lara Ribas e Rosa Filho, entretanto, citam o envolvimento do caudilho num episódio que pode ter relação com a emboscada de que seria vítima, semanas depois. Visando surpreender os rebeldes pela retaguarda nos sertões do Alto Paraná, conta Rosa Filho (2001, p. 62), militares paranaenses passaram a executar melhorias numa picada, visando a passagem das forças legais. A manobra foi percebida e os revolucionários desfecharam “violento tiroteio contra a tropa”, sob o comando do capitão Joaquim Antônio de Moraes Sarmento.

Naquele momento, as forças catarinenses estavam incorporadas ao Destacamento Santa Catarina, sob o comando do coronel do Exército Vasco da Silva Varela. No dia de Natal de 1924, acionado por Rondon, o coronel Varela mandou um oficial catarinense informar ao capitão Sarmento sobre o envio de “um contingente de patriotas organizados pelo coronel Fabrício das Neves” com o objetivo de apoiá-lo (ROSA FILHO, 2001, p. 62).

O oficial de ligação era o jornalista Mimoso Ruiz, que escreveu mais tarde sobre aquele momento. “Ao transmitir a ordem ao capitão Moraes Sarmento, declarou-me este oficial que iria, sem demora, colocar as suas metralhadoras em posição”, para “receber ‘com todas as honras’ (textual) o coronel Fabrício das Neves”. Argumentou que não esquecera ter sido ele o “assassino do coronel João Gualberto e o único responsável pelas mutilações que ele próprio sofrera, bem visíveis nas cicatrizes que tinha patentes no rosto”. Ruiz levou a informação a seu comandante imediato, Lopes Vieira, preocupado com as conseqüências do encontro de Fabrício e Sarmento. O jornalista comissionado como oficial, viajou a noite por cinco léguas para que a “tragédia fosse evitada” (RIBAS, 1985, p. 34).

Rosa Filho (2001, p. 62), confirmando a fonte anterior, escreve que ao receber a informação da presença de José Fabrício, o capitão Sarmento ficou “bastante nervoso, declarou que iria, sem demora, colocar suas metralhadoras em posição, a fim de recebê-lo com todas as honras”, que não havia esquecido os fatos do combate de Irani. Nessa ocasião, Sarmento recebera um “tremendo golpe de facão que lhe extirpou a vista direita, prostrando-o por terra”.

A ira de Sarmento sobre Fabrício vinha sendo remoída há 12 anos. No combate de Irani, ocorrido em 22 de outubro de 1912, o então alferes foram gravemente ferido, tendo desfalecido algum tempo. Ao se recuperar, a luta continuava. Amarraram um lenço em seu rosto. Conforme narrou mais tarde, o capitão Souza Miranda mandou que se abrigasse na floresta e aguardasse socorro. Foi, voltou a desmaiar devido a perda de sangue. Mais tarde recobrou os sentidos e perambulou “algum tempo sem orientação”, até encontrar o alferes Libindo e foram os dois a procura de água. Junto a um córrego, foram “alcançados por dois fanáticos”. Os dois levados (ROSA FILHO, 1998). Vimos esses detalhes em postagens anteriores.

É possível que após esse episódio envolvendo um antigo desafeto, atual patrono da Polícia Militar do Paraná, José Fabrício tenha sido dispensado e mandado de volta. Pode ter permanecido mais alguns dias na região, mas o fato é as lutas prosseguem no Paraná e outras áreas e o caudilho vai ser morto em Irani. A emboscada aconteceu quando os piquetes de José Fabrício e Marcelino Ruas retornavam a seus lugares de origem. Os detalhes da emboscada serão apresentados nas próximas postagens.


Referências

FERREIRA, Antenor Geraldo Zanetti. Concórdia: o rastro de sua história. Concórdia: Fundação Municipal de Cultura, 1992.

RIBAS, Antônio de Lara. Polícia Militar de Santa Catarina. Ações de Guerra dos Batalhões de Infantaria. Período de 1922 a 1930. Florianópolis: Polícia Militar de Santa Catarina, 1985.

ROSA FILHO, João Alves. Revolução de 1924. Curitiba: Associação da Vila Militar, 2001.



Nota - O capítulo acima é uma adaptação do que foi publicado no livro O mato do tigre e o campo do gato: José Fabrício das Neves e o Combate do Irani (Florianópolis: Insular, 2007).


Atentado de óbito


"Aos vinte e nove dias do mez de Janeiro do anno de mil nove centos e vinte e cinco neste 5º Distrito do Município de Cruzeiro, Estado de Santa Catarina, Districto de Iranÿ, em meu cartório compareceu Miguel Soares do Espírito Santo, e declarou que no dito dia as trez horas da tarde falleceo assassinado, sem assistência medica, contava cincoenta anos de idade, natural do Rio Grande do Sul, deixando os seguintes filhos, 1º Afonso com dezoito anos de idade 2º Elibia com quinze anos de idade, 3º Hortência com doze annos de idades 4º Domingos com deis anos de idade, e era casado civilmente com Dona Crespina Maria das Neves; e deixou bens a dar em ventario e para constar lavrei este termo e dou fé; Eu Galdino Ferraz Moreira Branco, escrivão Interino do Registro Civil que o escrevi dato e assino.


Iranÿ, 5 de Abril de 1925.
Miguel Soares do Espírito Santo
Hildebrando Antonio Mathias”.

Fonte: Cartório de Irani-SC.
Lº 1, Flª 3 de Registro de Óbito de Jozé Fabrício das Neves.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A religiosidade de São João Maria (7)

Festa de Santo Antão (7)














Cenas da 161ª Festa de Santa Antão (Santa Maria-RS).
Última postagem das festividades.
A série sobre a religiosidade de São João Maria prossegue.



Leituras

O profeta vive

Projeto de Pesquisa. O profeta não morreu - A presença do monge João Maria entre populações rurais catarinenses. Integrantes: Maria Amelia Schmidt Dickie e Tânia Welter (coordenadora).

"Este projeto trata da presença contemporânea do monge João Maria junto à diversas populações rurais (cafuzos, caboclos e colonos de origem), com pertença religiosa diversa e residentes no espaço catarinense onde ocorreu a Guerra do Contestado (1912-1916). Tomando a religiosidade como pano de fundo, o objetivo será buscar as referências ostensivas e não-ostensivas a João Maria para compreender a dinâmica de sua re-significação e descortinar o mundo que o engendra, ou é engendrado por ele. Para atingir este objetivo, se observará a presença de João Maria utilizando recursos da pesquisa qualitativa como entrevistas (especialmente a semi-estruturada), visita aos locais de devoção e participação em atividades ou eventos religiosos nas regiões de Fraiburgo (mais especificamente a localidade de Taquaruçu), Campos Novos (especialmente a Comunidade Invernada dos Negros e um assentamento do MST), Serra Catarinense e José Boiteux (Comunidade Cafuza)."


Texto de Tânia Welter (*)

"O projeta São João Maria continua encantado no meio do povo" - Um estudo sobre os discursos contemporâneos a respeito de João Maria em Santa Catarina. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de doutor em Antropologia Social, sob orientação da Professora Doutora Maria Amélia Schmidt Dickie. Florianópolis, 2007.


(*) A professora Tânia Welter é doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (2007), com estágio doutoral na Universidade Nova de Lisboa (Portugal, 2005/2006). Possui licenciatura em Ciências Sociais (UFSC, 1988), especialização em Educação Sexual (Udesc, 1997) e Mestrado em Antropologia Social (UFSC, 1999). Tem experiência no Ensino Superior e interesse em Religião, João Maria, Campesinato, Antropologia, Sociologia e Educação. (Fonte: Lattes)


Religiosidade no sul do Brasil

Nos caminhos do Santo Monge: religião, sociabilidade e lutas sociais no sul do Brasil
Cesar Hamilton Brito Goes

"Esta tese trata da formação religiosa dos grupos populares no Sul do Brasil, em especial dos caboclos. Essa religiosidade está baseada em uma crença popular específica, que trata dos poderes de um andarilho que fez sua fama no século XIX entre os Estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Outros andarilhos surgiram neste espaço até os anos 30 do século XX, e as narrativas de cada um deles fundiram-se em torno de um personagem, hoje cultuado como um santo, conhecido como Santo Monge ou São João Maria. Ao estudar a crença, demonstrase como a religião, neste caso, articulou-se às concepções de natureza e cultura desses grupos para configurar, nos termos de Elias [Norberto Elias], recursos e estratégias em torno do processo de modernização. Reconstruindo os personagens reconhecidos entre as populações que vivem no sul do Brasil como monges, em especial àqueles evocados como o Santo Monge ou São João Maria, a tese apresenta a formação religiosa de uma tradição que fora dos cânones institucionais do Catolicismo, forjou-se como uma religião. Demonstra que a partir dela os seus membros estabelecem relações que resultam na permanência dos valores que estruturam a sua sociabilidade. Demonstra também que nas relações em que se constata o fim da devoção, finda um formato específico de reprodução social e de identidade dos grupos. Dessa forma, defende-se aqui que esta religião, além das especificidades que a caracteriza, ocupa centralidade nas estratégias de sociabilidade no contexto de seus devotos". Íntegra.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

José Fabrício das Neves (43)

José Fabrício das Neves (FERREIRA, 1990).


Mudança para Itá

A tradição oral na região de Concórdia, Irani e região mostra um José Fabrício das Neves com “namoradas em cada lugar”, como afirma a diretora do Museu de Concórdia, Alvair Santos, dona Iti. Foi visto anteriormente, através de Waldomiro Silva, que um filho do caudilho, de nome Vicente, cuidava do armazém do pai em Itá, embora não exista nenhum com esse nome de seu casamento com dona Crespina Maria Antunes. Jurema Antunes das Neves Zunker, residente em Guarapuava-PR, neta de José Fabrício (filha de Hortência), cita uma antiga moradora de Itá, dona Erondina, como sendo filha do caudilho. “Ela morreu há uns 30 dias, aqui em Guarapuava, com mais de 90 anos de idade”, conta.

Os descendentes de José Fabrício que residem em Pinhão-PR, falam de outro filho ou neto desconhecido do caudilho, residente na cidade de Bituruna-PR. As mesmas fontes fazem vagas referências à presença de Fabrício das Neves em diversas cidades do Paraná, especialmente Guarapuava e Iratí. Nesta última ele teria sido recebido festivamente por moradores e autoridades. E também em Mallet, município em que Fabrício e seus homens teriam plantado roças de milho para, mais tarde, ter alimento para os cavalos, durante andanças pela região. É o que relata Assis Antunes da Neves, filho de Afonso e neto de José Fabrício.

Em Engenho Velho (Concórdia), José Fabrício se relacionava com Josefina Boroski, com quem teve três filhos, entre os quais dona Cecília Boroski (ou Borowski), antes referida, residente em Concórdia. Seu parentesco com o caudilho, foi indicado pelo jornalista Rubens Lunge, e o fotógrafo Júlio Gomes, filho de José Gomes. Ela passa as tardes na varanda de casa, conversando com o marido, José Talim, e recebendo visitas. O casal teve dois filhos: José Narciso Talim, 62 anos, que tem cinco filhas, todas casadas, e João Talim, 60 anos, residente em Novo Hamburgo-RS, com a esposa, dois filhos e três filhas. Dona Josefina e os filhos moravam perto do engenho de cana sob os cuidados de Chico Lino, “numa casinha”, ao lado do rio Fragoso, “onde encontrava com o Jacutinga”, recorda dona Cecília (foto a direita/Júlio Gomes). Segundo Jurema Antunes das Neves, (foto a esquerda), neta de Fabrício residente em Guapuava, sua avó Crespina Maria Antunes das Neves tinha detalhes do relacionamento do marido com Josefina e da existência dos três filhos. “Ela sabia”, diz.

Segundo José Antônio Puntel, que conheceu a família Boroski, o pai de Josefina teria trabalhado para José Fabrício. É possível que diante disso, dona Crespina tenha arrumado um jeito de fazer com que o marido e a família se mudassem para Itá, onde já se relacionava com os primeiros imigrantes chegados na cidade. Tenha sido esse o motivo, ou outro, o fato é que José Fabrício “abandonou Engenho Velho definitivamente em 1923”, escreve frei Tambosi. No dia 30 de novembro “saiu o bando de peões e no dia 1º de dezembro, ele mesmo, à frente de um piquete de cavalaria” (TAMBOSI, 1941).

O mesmo autor acredita que a transferência de José Fabrício para Itá tenha sido motivada pela Revolução de 1923 no Rio Grande do Sul, “da qual queria estar perto, sem contudo ser partidário”, observa. Na ocasião teria feito um “contrato” com os “revoltosos” para a exploração de cedro em mil colônias e “embalçá-las Uruguai abaixo para a Argentina. Derrotados os revolucionários, foi cassado o contrato”. O armazém em Itá se chamava “Casa Nova”, fornecendo produtos secos e molhados, conforme indica Assis Antunes das Neves.

A mudança não significou a paz e tranqüilidade que aparentemente José Fabrício buscava. E com as quais dona Crespina sonhava. Ao contrário. Exatamente por ampliar sua influência, estabelecendo acordos com as autoridades e empresários, como veremos adiante, atraiu mais inimigos ainda. Paulo Antunes das Neves ouviu seu pai Afonso, o filho mais velho de Fabrício, relatar mais de uma vez um cerco à casa em que moravam, em Itá. Um grupo de homens teria cercado a casa e abatido a vaca leiteira de dona Crespina, colocada na brasa para assar. “Meu avô não estava em casa. Queriam matá-lo”, assegura Paulo. Com a ausência do caudilho, foram embora, mas ficou o medo.

Barracão que teria servido como QG de José Fabrício
(acima, acervo do Museu de Concórdia). Abaixo a
localização atual, junto à praça Dogello Goss, no
Centro de Concórdia-SC (foto de março de 2007).

Canjica e carne de anta

Além de se articular com o superintendente Victor Rauen e outras autoridades regionais, José Fabrício das Neves, teria entrado em entendimento direto com o Governo de Santa Catarina, pouco depois do “Acordo” de 20 de outubro 1916. “Apenas terminada a luta dos fanáticos, Fabrício fez um contrato com o Governo do Estado, em detrimento da Cia Railway, a qual nada podia fazer”, uma vez que as concessões de terras que detinha eram do tempo em que o Paraná controlava a região. “Não reconheceu Santa Catarina os contratos territoriais da Railway, e as terras foram vendidas a outros pretendentes” (TAMBOSI, 1941).

Segundo Piazza (1998, p. 253), a lei nº 1181 de 4 de outubro de 1917, dava aos detentores de títulos expedidos pelo Paraná um prazo até 1º de janeiro de 1918 para registrá-los junto ao Governo catarinense. Ela só foi regulamentada pelo decreto nº 2, de 21 de novembro de 1918. O contrato do Governo do Estado com José Fabrício, mencionado por frei Tambosi, pode ter ocorrido nesse intervalo. De qualquer forma, as concessões da Railway passaram para sua subsidiária, a Brazil Development e Colonization Company, sendo confirmadas em 1922 com o compromisso de que fossem colonizadas. Caso isso não ocorresse, as terras voltariam às mãos do Estado em 15 anos, segundo o citado autor.

A empresa cumpriu a exigência e entregou amplas áreas de terras a diversas companhias de colonização, entre as quais a Mosele, Everle Ahrons & Cia, com sede em Marcelino Ramos-RS, cujo compromisso assinado em 22 de fevereiro de 1924, envolvendo 1.073.582.648 m2, abrangia todo o atual município de Concórdia. No dia 18 de maio do ano seguinte, poucos meses após a morte de José Fabrício, começou a efetiva colonização da região (PIAZZA, 1988, p. 261).

Antes dos trabalhos serem iniciados, entretanto, algumas providências eram necessárias, visando sobretudo a presença de José Fabrício e seus caboclos assentados há mais de uma década pela região. Para essa missão foi escalado Victor Kurudz, funcionário da Brazil Development, oriundo de Curitiba, desde 1920 atuando como agrimensor com base em Piratuba-SC. Antenor Geraldo Zanetti Ferreira foi conversar com Kurudz em 1992, em Curitiba, onde residia.

Ele conta que sua família veio da província de Bocovina, atual Romênia, durante a Primeira Guerra, indo se instalar na colônia Irani, se transferindo depois para a capital paranaense. Ao chegar em Piratuba, a serviço, Kurudz logo tratou de fazer amizade com os caboclos, se referindo a eles, décadas depois, como “muito humanitários”. Logo estava na casa de José Fabrício, comendo canjica e carne de anta preparada por dona Crespina Maria, referida por Kurudz apenas por Maria. “Eu era amigo dele e eu o compreendia”, salienta.

Kurudz destaca no coronel Fabrício a “capacidade, conhecimento, uma psicologia, sabia lidar com as pessoas”. O caudilho não trabalhava, ou seja, não pegava no cabo da enxada nem tangia gado, mas vivia “rodeado de capangas que trabalhavam para ele”. Certa vez Fabrício lhe teria dito: “Comecei a trabalhar na roça, mas eu não preciso trabalhar, não gosto de trabalhar”. Para Kurudz isso era “só psicologia”, pois “ele tinha uma capacidade invejável de saber, de adivinhar aquilo que queria”.

Apesar de comer canjica e anta preparada por dona Crespina, indicando amizade entre ele e a família de José Fabrício, Kurudz produz um certo suspense ou ar de mistério do encontro na antiga estação do Barro, hoje município de Gaurama, entre Marcelino Ramos e Erechim, no Rio Grande do Sul. Ao que parece, ocorreu um desencontro e uma segunda reunião teve que ser marcada (KURUDZ, 1990). No livro em que aborda o tema, Ferreira (1992, p. 53) usa informações que não constam do depoimento, certamente anotadas durante conversas informais.
O encontro acabou acontecendo perto da estação de Barro, na pensão Sponchiado, em meio a rumores de que Fabrício estaria vindo com seus homens para algum acerto de contas, mas “seu único objetivo era encontrar-se comigo”, diz Kurudz. Logo após o café da manhã, Kurudz mostrou a Fabrício um documento que o advogado da Brazil Railway, Ulisses Vieira, “mandou para assinar”.


O acordo

Segundo o documento, cujo original não foi localizado, a empresa “se propunha entregar seis alqueires, divididos em lotes a serem distribuídos aos companheiros de Fabrício das Neves”. Eles teriam que pagar 50 mil réis ao ano por cada lote, “sendo que para o próprio Fabrício caberiam 400 mil alqueires de terras excelentes e férteis num local chamado Laranjal”, entre as regiões de Cachimbo e Planalto, em Concórdia. Segundo Kurudz, Fabrício “aceitou assinar o documento no cartório”. “Lá nos encontramos, o delegado, o juiz, eu, Fabrício e seus capangas”, garante Kurudz. “Antes de assinar, sem explicar o motivo do questionamento, Fabrício quis saber o nome do diretor da Companhia”, sendo informado que era Gonçalves Júnior. “Fabrício assinou o documento”. (FERREIRA, 1992, p. 53) A fazenda Laranjeira é a mesma em que teria sido morto o monge Nemézio.

Frei Tambosi (1941) também comenta o acordo em suas Crônicas “Para proteger os seus direitos nas colônias a Cia Railway fez um acordo com o coronel Fabrício”, entregando a ele, em parcelas, 450 alqueires “que ele distribuiu a seus caboclos, mas nunca pagou”. Entretanto, José Fabrício não figura nas listas de devedores nos Relatórios produzidos entre 1909 e 1931 pela Brazil Railway, mantidos pelo Arquivo Público de Santa Catarina, consultados em 15 e 16 de abril de 2007, em Florianópolis.

Por outro lado, existe o depoimento de Antônio Martins Fabrício das Neves, negando que seu antepassado tenha feito qualquer acordo. “Nunca ouvi falar, não é do meu conhecimento, porque se tivesse alguma relação, alguma coisa, o meu pai, meus avós sabiam disso”, garante, e “eles nunca falaram sobre isso. Eu acho que isso aí nunca, nunca houve” (Entrevista ao Museu de Concórdia, 1990). Seja como for, Fabrício deixa Engenho Velho e segue para Itá no mesmo ano em que o acordo teria sido firmado.


Fotos da praça Dogello Goss (março de 2007).

A concórdia

O mesmo Victor Kurudz envolve José Fabrício na solução de um impasse surgido na demarcação da região, onde existiam “ranchos de tábuas lascadas, habitados por caboclos, entre os quais Eusébio e João Cerilo Nery, que possuía uma bodega”, a mesma visitada pelo superintendente de Catanduva na expedição a Ita, referida anteriormente. Consta que o caboclo Eusébio, cujo nome completo se desconhece, teria se oposto à demarcação, quando Fabrício foi chamado. O encontro teria se realizado na “casa de Eusébio, uma tapera nas imediações do riacho” – o rio Queimados. O caudilho, “devido à forte influência que exercia sobre os caboclos”, serviu como uma espécie de avalista da proposta feita por Kurudz, que se “comprometeu a legalizar em nome de Eusébio uma considerável área de terra”. O caboclo aceitou, levando Kurudz a cunhar o nome de Concórdia para o lugar, hoje município (FERREIRA, 1992, p. 66).

Até que o documento do citado acordo apareça, temos apenas a palavra de Victor Kurudz, narrando fatos ocorridos quase sete décadas atrás, diante de um Antônio Fabrício das Neves que nega ter existido qualquer entendimento nesse sentido. Seja como for, a versão é a que alimenta a memória do município de Concórdia, uma espécie de mito de origem, ensinada nas escolas dos municípios. “A causa predominante no povoamento da vila foi a fixação de residência do caudilho José Fabrício das Neves, que havia estabelecido no local o seu ‘quartel-genenal’”, diz um texto da secretaria de Educação local. A colaboração do caudilho é enfatizada da seguinte forma: “Na venda dos lotes rurais, José Fabrício das Neves apresentava ao diretor da Colônia, caboclos interessados na compra de terras”. Referências ao acordo estão presentes na Internet. Exemplo: “O nome Concórdia deve-se ao fato de um acordo de paz, estabelecido entre jagunços coordenados por José Fabrício das Neves e a Brazil Development Colonization Company” (RADARSUL, 2007).(*)

O site da rádio Aliança, de Concórdia diz que visando “colonizar as terras ao longo da ferrovia, em 1912 aqui chegaram os primeiros imigrantes”, trazidos pela Brasil Devolompment Colonization Company, fundando “uma pequena vila, no local onde já residia o caudilho José Fabrício das Neves, considerado o pioneiro da colonização” (RADIO ALIANÇA, 2007). A Prefeitura de Concórdia destaca na Internet que a colonização do município foi promovida pela a Brazil Railway Co. (através da empresa subsidiária Brazil Development and Colonization Company, com sede em Portland, nos Estados Unidos), autorizada a funcionar no Brasil, a partir de 13 de março de 1912. “Nesta mesma época chegam os primeiros imigrantes, e fundaram uma pequena vila, no local onde já residia o caudilho José Fabrício das Neves, considerado o pioneiro da colonização”. (**)


(*) O texto citado parece ter sido retirado do site (estava em . Acesso em: 21 jun. 2007), substituído por outro em inglês. Acesso em 28.1.2008.
(**) O endereço citado foi substituído e o texto pode ser encontrado em novo endereço.



Notas - 1) Os textos acima, com ligeiras alterações, foram publicados em O mato do tigre e o campo do gato: José Fabrício das Neves e o Combate do Irani. Florianópolis: Insular, 2007. 2) A foto que abre a postagem foi publicada por Antenor Geraldo Zanetti Ferreira em seu livro citado, atribuída a José Fabrício das Neves. O pesquisador Napoleão Dequech, que viveu boa parte de sua vida em Concórdia-SC, garantiu ao fotógrafo Júlio Gomes que a foto era do pai de José Fabrício das Neves (Antônio Fabrício das Neves), mas não foi possível trabalhar essa informação. O homem se parece com José Fabrício, mais jovem, e a casa ao fundo pode ser a indicada como sendo o seu QG.


Referências

FERREIRA, Antenor Geraldo Zanetti. Concórdia: o rastro de sua história. Concórdia: Fundação Municipal de Cultura, 1992.

KURUDZ, Victor. 93 anos. Depoimento, julho de 1990. Concórdia/SC. Entrevistador: Antenor Geraldo Zanetti Ferreira. Equipe Resgate/Museu Histórico de Concórdia. Acervo do Museu Histórico de Concórdia. Transcrição Elza Paula Schmidt. Fita nº 4.

PIAZZA, Walter F. A colonização de Santa Catarina. 2. ed. Florianópolis: Lunardelli, 1988.

TAMBOSI, Valentin. Livro de Crônicas para a Capela de Nossa Senhora Aparecida de Engenho Velho. Paróquia N. S. do Rosário, Concórdia, Diocese de Lages. [1941]. 50f. [manuscrito]. (Fotocópia das primeiras páginas cedida por José Puntel. Concórdia, abril 2007).