quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

José Fabrício das Neves (38)

Praça central de Concórdia-SC, onde José Fabrício
e seus homens ergueram as primeiras edificações.

Os sertões por ménage

O título é o original do livro "O mato do tigre e o campo do gato" (Florianópolis: Insular, 2007) e se baseia em entrevistas realizadas no Meio-Oeste catarinense e no Sudoeste do Paraná, cujas fontes estão indicadas no próprio texto. Nele temos o início da trajetória de José Fabrício das Neves no pós-combate do Irani, indiciado no Processo de Palmas (PR) e condenado junto com outras seis pessoas.

Antônio Martins Fabrício das Neves diz que José Fabrício da Neves participou do combate de Irani “como assessor” de José Maria de Castro Agostinho. Foi um dos homens de “mais confiança do monge”, assegura. A seus contemporâneos José Maria afirmava ter "ajudado muito" a José Fabrício “nesse ideal de colonização, então depois ficaram muito conhecido, muito amigo”. No combate, “o Maria tinha ele” como um dos assessores, “mas um assessorava o outro porque não tinha um posto maior que o outro”.

No dia do combate o monge dissera a Fabrício que “se era para morrer gente ele ia morrer”, mas não poderia “deixar aí essa coloniada tudo aí na frente e eu ficar lá atrás, e nós temos que ir na frente”. Os dois não poderiam se prevalecer “dessa gente, vamos enfrentar nós, e se eu morrer você pega essas armas que nós temos aí”, e “cuide essa gente, guarneça esse sertão aí”. Segundo Antônio, “foi o que ele disse para o Fabrício”.

José Fabrício fugiu após o combate? Segundo Antônio Fabrício das Neves, “ele correu, que nem os outros”, sobretudo os homens, permanecendo as mulheres e crianças em Irani. “Eles foram para Itá”, garante, além de Concórdia, onde o caudilho manteve seu “quartel-general” por muitos anos. “Mas o Fabrício transitava daqui lá mas tocando o mesmo serviço, a mesma, o mesmo ideal que eles tinham”, observa, “lidando com criação, fazenda, lavoura”. José Fabrício, acrescenta, “nunca correu para dar lado pros outros”, ficando “na dele, nunca provocou ninguém mas também não correu, ele cuidou da vida dele como ele sempre tinha aquele ideal”.

E porque José Fabrício não é citado no combate de Irani? “Não aparece porque ele não foi indicado por ninguém, por causa do... pra não haver mais nada, ficar por aí e ponto”, reagiu Antônio Martins Fabrício das Neves à pergunta da professora Eunice Cadore Franzack em 1990 (Museu Histórico de Concórdia-SC). Na ocasião, ele comparou o interesse da entrevistadora – “querendo saber certos detalhes” – com aqueles que antigamente apareciam fazendo perguntas. Nessas ocasiões, o caboclo “não se manifestava em nada”, desconfiando do interesse por aquelas informações. “Então por isso o Fabrício no Contestado não aparece", complementa Antônio. A perseguição e mais tarde a emboscada e a degola do caudilho, marcaram profundamente a família, dividindo alguns de seus membros em relação ao personagem, com veremos no decorrer do trabalho.

Antes de prosseguir com os negócios e o projeto de colonização, evitando constantemente a morte, José Fabrício tomou providências para manter seus homens em segurança. “Se o futuro é de Deus, esse foi uma alma santa, escondendo todo mundo, a parentela, não morreu nenhum”, assegura Elvira Dalla Costa, que ouviu muitos relatos do avô, João Damas Fabrício, pai de Antônio Martins Fabrício das Neves que vem sendo citado.

João Damas e outros homens, muitos Fabrícios, ficaram esperando o momento de entrar em combate. Caso as forças lideradas por José Maria e José Fabrício fossem batidas, eles entrariam em ação. “Meu avô esperava com o cavalo pronto pra entrar na guerra”, diz dona Elvira, residente em Palmas-PR.

Na ocasião, chegou uma mulher no portão do local onde estavam, “por sinal, muito bonita, montava um cavalo. Ela apeia e diz: ‘Vocês não vão entrar em combate. Mataram 30. Ganhamos’. Disse isso e sumiu”. Mais tarde apareceu “o chefe deles” e confirmou que haviam derrotado as forças de João Gualberto.

Antes de cuidar de si e dos demais, Fabrício tratou de garantir a integridade do túmulo de José Maria, tendo instalado nas imediações um dos seus homens, recentemente vindo do Rio Grande do Sul, José Bortolin, onde havia matado um homem. No Irani, assumiu o sobrenome “Petini”, o mesmo usado por seu filho Tranqüilo, 83 anos, casado com Isaura Kades. Ao atravessar o rio Uruguai e entrar em Santa Catarina, Bortolin, também conhecido por Beppe Gordo, fora ajudado por José Fabrício, que emprestara a ele um cavalo tordilho para que pudesse chegar ao Irani.

Até pouco tempo o local era protegido por um cercado, feito por Beppe Gordo (Bortolin), “porque a criação pisava pra lá e pra cá”, informa dona Isaura. “Ele usou uns palanquinhos depois umas varas por cima”, acrescenta. Sucessor do pai na guarda do túmulo por muitas décadas, Tranqüilo lembra que em certa ocasião os calçados de José Maria afloraram do solo, devido ao fuçar dos porcos. A notícia se espalhou e apareceu muita gente para visitar o local, até que o problema foi contornado com a colocação de mais terra. Atualmente o túmulo está demarcado por pedras, no meio de um bosque, mas não existem vestígios de visitação, como restos de velas e flores. Também não existe nenhuma placa indicando quem está enterrado no local.

Conforme já citado, os caboclos que acompanharam José Fabrício no combate de Irani, se instalaram nas imediações do atual município de Itá. Fabrício era casado com dona Crespina Maria Antunes, pais de Afonso, nascido em 1908, Elíbia (c. 1910), Hortência (c. 1911) e Domigos (c. 1912). Ou seja, em pleno combate de Irani, estava com pouco mais de 30 anos de idade e quatro filhos. Afonso, ao atingir cerca de 12 para 13 anos, por volta de 1920, passou a acompanhar o pai, sendo visto em pelo menos duas fotos da época acompanhando o “estado-maior” de José Fabrício.

Por outro lado, cabe destacar que José Fabrício não (*) continuou participando do Contestado, que se estendeu oficialmente até 1916, ou pelo menos as fontes consultadas até o momento não permitem que se avance com sua presença nos eventos posteriores ao combate de Irani. As evidências trabalhadas, ao contrário, indicam que José Fabrício seguiu outro rumo, cujos principais momentos serão abordados a seguir.


(*) Conforme relatado anteriormente nesse espaço, José Fabrício continuou sim em contato com as lideranças do Contestado. Durante o cerco a Santa Maria, ele tentou um novo levante nos sertões do Irani (hoje Concórdia, Itá e municípios próximos), visando permitir que os rebeldes atravessassem o rio do Peixe para continuar a luta nos campos de Palmas/Irani. Voltaremos a esse tema que ainda está em aberto, tendo em vista o prosseguimento das pesquisas e a necessidade do recurso a outras fontes.

Elvira Dalla Costa e seus netos em Palmas-PR.

Isaura Kades e Tranqüilo Petini (Irani-SC).

Nenhum comentário:

Postar um comentário