domingo, 4 de janeiro de 2009

José Fabrício das Neves (33)

Os papéis de Thomaz e Miguel Fabrício das Neves (1)

Thomaz e seus familiares. Irani, meados da década de 1920.
Acervo: Thomaz Oliveira Neves (Palmas-PR)


Sete dos 63 arrolados no inquérito aberto em Palmas no dia 23 de outubro de 1912, foram efetivamente condenados ao final do processo: José Fabrício das Neves, José Alves Perão (José Felisberto), Praxedes Gomes Damasceno (líder em Taquaruçu, Fraiburgo-SC), “Luiz de Tal filho de João Luiz”, Manoel Barreto, Emiliano Glória e “Maurílio de Tal, vulgo Pepino Branco”.

Miguel Fabrício das Neves, então com 64 anos de idade, e seu sobrinho Thomaz Fabrício das Neves, 37, irmão de José Fabrício das Neves, foram presos e conduzidos a Palmas pelo delegado de polícia Gonçalino Silva, aonde chegaram em 13 de abril de 1913, permanecendo 38 dias “a ferros”. Foram liberados em 21 de maio do mesmo ano.

Vamos nos deter um pouco nesses dois personagens, o tio e o sobrinho. Sobre o segundo (Thomaz) foi possível obter muitas informações, inclusive localizar muitos de seus descendentes no Paraná. Em relação ao primeiro (Miguel), permanece uma série de dúvidas, inclusive quanto a seu destino e dos descendentes.



Miguel Fabrício das Neves

Não era fácil assistir e alimentar toda aquela gente, os animais de montaria e carga, garantir cama e cobertura, dar conta dos dejetos e lixos. Aos que se juntavam para a luta, estava quem simplesmente buscava a atenção do monge José Maria, seus conselhos, receitas, rezas e missas.

Desde o dia 18 de outubro de 1912, quando o sobrinho Thomaz Fabrício apareceu com o grupo do monge, a propriedade de Miguel Fabrício das Neves fervilhava de gente. Alguns conhecidos, outros completamente estranhos. Mas ninguém deveria passar necessidade. Hospitalidade, uma característica ainda presente na região.

Com 64 anos, nascido na região de Passo Fundo, Miguel lutou na Revolução Federalista (1893-1895) e foi um dos muitos Fabrício que se juntaram aos Soares, aos Kades e a outras famílias, para ocupar os campos de Irani. Era uma região quase desabitada, localizada na zona “indicada pelo monge”, segundo Antônio Martins Fabrício das Neves.

Foi da casa dele que José Maria saiu com um grupo de homens, no amanhecer de 22 de outubro de 1912, para combater as forças do coronel João Gualberto. Miguel certamente não combateu, assim como o coronel Miguel Fragoso, mas forneceram a infra-estrutura e os homens que foram para o combate. Não entraram na luta porque não foi necessário. O efetivo de José Maria foi suficiente.

Assim que chegaram as primeiras notícias do resultado do combate, Miguel Fabrício e o coronel Miguel Fragoso se retiraram “às pressas”, encontrando no caminho Praxedes Gomes Damasceno, chamado de capitão Praxedes, a cavalo e com muito sangue em uma perna. Teria passado direto, sem falar com ninguém. Miguel foi se refugiar com a família num paiol de seu filho Alípio.

No caminho encontraram Emiliano Martins Moreira, 48 anos, viúvo, lavrador, que acompanhou o deslocamento da caravana formada por Miguel Fabrício e seus familiares, filhos e genros.

- Ele disse que ia de mudança para o outro lado do rio Jacutinga, porque o pessoal de José Maria tinha tido um encontro com as forças do Governo e que estavam brigando, teria dito Emiliano no depoimento.

Miguel, segundo Emiliano, estava com jeito de quem “havia corrido após o combate”.

Miguel Fabrício das Neves presenteou José Maria com uma guampa branca onde se lia o seguinte: “Santa Maria, 9 de agosto de 1912. MFN”.

Que Miguel Fabrício, também tendo sob suas ordens muita gente, deixou de comparecer ao combate, tendo na véspera destroncado um pé, dizem uns, por ocasião de fazer um reconhecimento”. “[...] dizem outras pessoas de casa e ele próprio, por ocasião de ir fazer uma visita a um seu parente”. “[...] tendo, porém, entrado em combate contra as forças legais e tomado nele parte saliente, os indivíduos que serviam sob suas ordens”. (Terceira conclusão. Relatório do Inquérito)


Thomaz Fabrício das Neves

Thomaz Fabrício das Neves foi ouvido durante a fase de inquérito pelo comissário Nascimento Sobrinho, no dia 20 de novembro de 1912, na residência do comerciante João Roza, no Faxinal dos Fabrício (Irani). O irmão de José Fabrício das Neves estava com 37 anos de idade, casado com Elíbia Fabrício das Neves, atuava como lavrador, era natural do Rio Grande do Sul e residente no Banhado Grande, “distante do local do combate 700 metros”.

Disse que no dia 14 de outubro de 1912, “chegou em sua casa um indivíduo de nome José Maria, intitulado Monge, acompanhado de cento e cinqüenta homens, uns a pé e outros a cavalo, e todos armados, dizendo andar a passeio e vindo de Curitibanos, entre eles recorda-se de um de nome Praxedes e que também o Monge trazia consigo doze indivíduos, bem montados, cujos nomes ignora, aos quais dava o título de 12 pares de França; que esses homens estiveram em sua casa durante quatro dias, retirando-se depois para a casa de Miguel Fabrício”.

Thomaz alegou que não sabia “o nome de nenhum dos homens que acompanhavam o Monge” e que seguira José Maria e seus homens na retirada para a casa de Miguel, retornando “no mesmo dia para sua casa”. No dia 21 de outubro, véspera do combate, ao chegar ao reduto, vira “ali o coronel Soares conferenciando com o Monge". Soube"ter ficado combinado a retirada do Monge com seu pessoal, no dia seguinte, para Campos Novos; que nessa ocasião não pode notar o número de pessoas que rodeavam o Monge, e que com pouca demora retirou-se para a sua casa”.

Nessa mesma noite de 21 de outubro de 1912, Thomaz “ouviu muito barulho na estrada, de cavaleiros e falas, e que ao amanhecer ouviu forte tiroteio, e, como as balas estivessem cruzando por cima de sua casa, retirou-se com sua família pela estrada vindo para a casa de João Roza, seu próximo, onde deixou sua família e foi se esconder no fundo do potreiro, que fica na direção do Banhado Grande [assinalado no original], não vendo por isso as pessoas que passavam na estrada”. De onde estava conseguia avistar a casa de João Roza, para onde retornou.

Afirmou ao comissário que permaneceu três dias em seu paiol, “vindo em sua casa e regressando no mesmo dia para o mesmo paiol de onde só regressou a tardinha”. Ali foi visitado por “seu cunhado Gabriel Fabrício, inspetor do Quarteirão”, que o convidou “para ir ajudar a enterrar os cadáveres”. Ao chegar no Banhado Grande “encontraram vinte e um cadáveres que ali deram sepultura”, entre os quais José Maria e o coronel João Gualberto e “que esses cadáveres apresentavam sinais de saque pois os bolsos se achavam todos virados para fora”.

Disse ignorar se moradores locais “tomaram ou não parte do combate”, garantindo que nesse dia, seu tio Miguel Fabrício se achava de cama com um pé destroncado. Por fim alegou “que devido a sua ignorância, nunca desconfiou que os planos de José Maria fossem reais; que nada mais pode informar [...]”. (Processo do Irani - fls 138-139)


Detalhe do baú que pertenceu a Thomaz Fabrício das Neves, exposto no Museu do Jagunço (Taquaruçu, Fraiburgo-SC) e que estava em poder de Sílvia Neves. Junto ao baú estão o garfo e faca de prata que teriam sido usados por José Maria por volta de 1911 (pertenceu a Maria Padilha e foi cedido ao Museu por Pedro Felisbino). A tesoura também teria sido usada por José Maria para cortar os cabelos dos caboclos (cedida ao Museu por Sérgio de Lorenzi).

7 comentários:

  1. Felipe Côrte Real de Camargo4 de janeiro de 2009 23:31

    Celso, estou cada vez mais impressionado como você divide conosco pesquisas de ponta em um espaço que é de acesso a todos.
    Sorte nossa e mérito seu.

    Grande abraço

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  2. Caro Celso, apenas uma pequena correção do nome da esposa de Diarte é Deolinda da Luz Neves. Meu nome é Edevilson Tomaz Fabrício, filho de Tomaz Fabrício das Neves, neto de Dinarte Fabrício das Neves e bisneto de Thomaz Fabrício das Neves. Somos gratos pelo resgate histório que fez sobre nossa família, desta forma mostrando que nossos antepassados não eram bandidos mas homes de brio que lutaram pelos seus ideais. Se for possível fazer conta to meu email é etfabrico@hotmail.com, minha avó ainda é viva e relata muitas histórias que encontramos no seu livro.

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  3. Bom tarde, a Dona Elibia esposa do thomaz é mae de criação do meu vô, o nome dele é Saturnino Soares de Oliveira... conheco pouco sobre a familia gostaria de saber mais se couberem me passem gabi_vescovi@hotmail.com
    Obrigada

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  4. Estou lendo sobre a Guerra do Contestado e nela encontrei a saga dos "Perão", através de José Alves Perão. Gostaria de saber a origem deste sobrenome...
    José Newton Perão
    (jperão@gmail.com)
    Resende,RJ em 25 de abril de 2010

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  5. BUENAS,MINHA MÃE CHAMA-SE MARIA PADILHA ELA É DE 1952 ELA É FILHA DE ELVIRA DE MORAIS PADILHA E NAPOLEÃO PADILHA,E NETA DE AGOSTINHO PADILHA ELE É DE1867 MEU BISAVO ELE CONTAVA QUE QUANDO OS SOLDADOS PASAVAM ELES MATAVAM TUDO ENTÃO SOBRA SO O COURO DO GADO QUE ERA SOCADO NO PILÃO E COMIDO COM MEL.MEU BISAVO ´MORAVA POR TAQUARA VERDE CAÇADOR RIO DAS ANTA EU ACHO GOSTARIA DE SABER MAIS DA MINHA GENTE.VILSON PERSUHN.
    VILSONPH@hotmail.com

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    1. Olá estou procurando família Padilha que morou ou mora na região perto de Diamante do Oeste, no rio jacutinga no paraná, minha mãe quer encontrar seus parentes. o tio da minha mãe se chama Pedro Padilha e sua tia Maria Padilha.

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  6. se me responder estou no facebook Jocirlei Guilherme

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